5 de set de 2013

Os "eus" - Permanecer adormecido, ou despertar?



“Se um homem pudesse entender todo o horror da vida das pessoas comuns, que estão dando voltas num círculo de interesses insignificantes e insignificantes objetivos, se pudesse entender o que é que elas estão perdendo, compreenderia que só pode haver uma coisa importante para ele – escapar da lei geral, ser livre. O que pode ser importante para um homem que está na prisão e foi condenado à morte? Somente uma coisa: Como salvar-se, como escapar: nada mais é importante."

G. I. Gurdjieff



"Esse mestre esotérico russo teve grande relevância em determinados círculos intelectuais da Inglaterra e França depois da primeira guerra mundial, formando uma linha esotérica denominada 'Caminho ou Trilha do Fio da Navalha', a qual tinha certa linguagem hiperbórea. Se poderia afirmar que Gurdjieff era um siddha adormecido e seu pensamento é ainda hoje em dia é de grande importância".


Gurdjieff é um homem que trouxe do Cáucaso um método para destruir os "Eus", para voltar a ser Um mesmo e para ocupar a terra. 

Fragmentos do livro "Em busca do milagroso - Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido", de Ouspensky. Ouspensky foi aluno de Gurdijieff, e aqui se refere a ele, é Gurdjieff quem fala. 

1- Se sua vida está tão mal organizada que não pode dispor de mil rublos, será muito melhor que não empreenda essa classe de trabalho.

2- Todos os homens são máquinas, e das máquinas não se podem esperar outra coisa que feitos mecânicos.

3- Todas as pessoas que você vê, todas as pessoas que você conhece, todas as pessoas que ainda pode chegar a conhecer, todas, todas são máquinas, verdadeiras máquinas que trabalham só movidas por influências externas, como você muito bem disse. Máquinas nascem e máquinas morrem.

4- - Antes de falarmos de psicologia devemos por em claro a quem se refere e a quem não se refere, digo. A psicologia se refere às pessoas, aos homens, aos seres humanos. Que psicologia pode haver em relação às máquinas (reforçou a palavra psicologia)? Para o estudo das máquinas faz falta a mecânica, não a psicologia. Por isso começaremos com a mecânica. Ainda estamos muito longe da psicologia.
- Pode alguém deixar de ser uma máquina? - perguntei-lhe.
- Ah, essa é justamente a questão - disse Gurdijieff - Se você tivesse me feito esse tipo de pergunta antes, poderíamos ter chegado em algum lugar em nossas conversas. Sim, é possível deixar de ser uma máquina, mas para isso é indispensável antes de mais nada conhecer a máquina. Uma máquina, uma verdadeira máquina, não se conhece a si mesma, e mal pode conhecer-se. Quando uma máquina se conhece a si mesma, deixa de ser máquina; ao menos não é a mesma máquina que era antes. Começa a ser responsável por seus atos.
- Você quer dizer que um homem não é responsável por seus atos?
- Um homem (ênfase nessa palavra) sim. Uma máquina não.

5- O homem é uma máquina. Todos os seus feitos, todas as suas ações, todas as suas palavras, seus pensamentos, sentimentos, convicções, opiniões e hábitos, tudo é o resultado de influências externas, de impressões que lhe chegam de fora. Por isso mesmo, de si mesmo o homem não pode produzir um só pensamento, uma só ação. Tudo quanto diz, faz, pensa, sente, tudo isso sucede. O homem não pode descobrir nada novo, não pode inventar nada, tudo sucede.

6- O homem nasce, vive, morre, constrói casas, escreve livros, não como ele quer fazê-lo, senão como de bom grado sucede. Tudo sucede. O homem não ama, não odeia, não deseja. Tudo isso sucede no homem, sem que o homem se dê conta disso. Mas ninguém quer acreditar se você diz que ninguém pode fazer nada. Isto é o mais ofensivo e o mais desagradável que se pode dizer a uma pessoa. E é particularmente ofensivo e desagradável porque é a verdade. Ninguém quer saber a verdade.

7- Verá você que utilizamos uma linguagem muito especial, e a fim de poder falar conosco será necessário que você aprenda esta linguagem. Não vale a pena falar em uma língua ordinária porque disso resulta impossível conseguir um entendimento mútuo. Neste momento, isto parecerá estranho a você. Mas é a verdade. A fim de poder compreender, é necessário aprender outra linguagem. A linguagem que falam as pessoas impede que se entendam uns aos outros. Adiante você verá porque isso é assim.
Devemos então aprender a dizer a verdade. Isto lhe parecerá estranho. O que ocorre é que você não compreende que uma pessoa tem que aprender a dizer a verdade. Parece que unicamente basta desejar ou decidir fazê-lo. E Eu te asseguro que muitas poucas vezes as pessoas mentem deliberadamente. Na maioria dos casos crêem que dizem a verdade. Mas sem equívocos, estão mentindo todo o tempo, tanto quando querem mentir quanto quando querem dizer a verdade. Mentem sempre, tanto aos demais quanto a si mesmos. Em conseqüência ninguém se entende a si mesmo, nem pode entender os demais. Pense um pouco: haveria tanta discórdia, tantos maus entendidos, tanto ódio quanto às opiniões alheias, se as pessoas pudessem se entender uns aos outros? Não podem entender-se porque não podem evitar a mentira. Dizer a verdade é o mais difícil que há no mundo; e uma pessoa deve estudar muitíssimo e durante muito tempo para poder dizer a verdade. Não basta só desejá-lo. Para poder dizer a verdade é necessário saber o que é a verdade e o que é a mentira, e sabê-lo antes de mais nada em si mesmo. E isto é algo que ninguém quer saber.

8- Se você não se dá conta de sua própria situação, você está preso. E tudo quanto você pode desejar, se é uma pessoa sensata, é sair desse cárcere. Mas como vai fazê-lo? É preciso cavar um túnel. Um homem não pode fazê-lo por si só. Mas, suponhamos que haja uns dez ou vinte homens dispostos a fazer a empreitada. Trabalhando por turnos, uns encobrindo aos outros, podem terminar o túnel e sair do cárcere. E mais, ninguém pode sair desse cárcere se não obtém ajuda que quem já fugiu antes dele.

9- Para que um preso tenha possibilidades de fugir, tem que começar por dar-se conta que está preso. Enquanto não entenda isso, enquanto não se advirta, enquanto não se dê conta que está preso, enquanto pense que é livre, não tem a menor possibilidade. Ninguém pode ajudá-lo, e por certo que ninguém pode liberá-lo à força, contra sua própria vontade, opondo-se aos seus desejos. E se há alguma possibilidade de fuga, esta pode converter-se em realidade unicamente como resultado de muito trabalho, de grandes esforços; sobretudo de esforços conscientes, dirigidos a um propósito definido e claro.

10- O “homem-máquina”, para quem tudo está sujeito às influências externas, a quem as coisas unicamente lhe ocorrem, a quem hoje é uma pessoa e amanhã é outra e depois de amanhã uma terceira, não tem nem pode ter futuro de nenhuma espécie; está enterrado e isto é tudo. O barro ao barro volta. A fim de poder falar de qualquer tipo de vida futura, tem que haver uma cristalização, certa fusão das qualidades internas do homem, certa independência das influências exteriores. Se algo há em um homem que seja capaz de resistir às influências externas então esse mesmo algo poderá resistir à morte do corpo físico. Mas pensem vocês mesmos: o que pode sobreviver à morte física de um homem que perde a cabeça ou desmaia quando se corta um dedo?

11- Assim consegue cristalizar-se. É desta forma que muitas pessoas podem gerar em si mesmas uma grande força interior, pode suportar torturas, pode obter o que quiser. Isto significa que nestas pessoas há algo sólido, algo permanente. Estas pessoas podem chegar a ser imortais.

12- É preciso fazer sacrifícios. Se nada se sacrifica, nada se consegue. E é preciso sacrificar algo que no momento seja muito precioso, sacrificá-lo por um tempo muito longo e sacrificar bastante. Mas não há que sacrificar para sempre. É indispensável entender isso com toda a clareza, porque muitas vezes não se entende como é devido. O sacrifício é necessário só enquanto está se desenvolvendo o período da cristalização. Quando se alcançou a cristalização, todas as renúncias, todas as privações, todos os sacrifícios deixam de ser necessários. Então o homem pode fazer o que lhe dê na cabeça. Já não há mais leis para ele, porque ele é a lei em si mesmo.

13- Este aspecto da questão é sumamente claro. A multidão não requer nem busca, sequer o conhecimento. Os dirigentes das multidões, movidos por seus próprios interesses, tratam de aumentar os medos das pessoas e fomentam o repúdio de tudo o que seja novo e desconhecido. A escravidão, que é a condição da atual vida do homem, se baseia nesse medo. É sumamente difícil ainda imaginar todo o horror de semelhante escravidão. Nós não compreendemos o que as pessoas perdem. Mas a fim de compreender as causas dessa escravidão, basta observar a forma com que as pessoas mentem. Basta observar o que é que constitui a finalidade de sua existência, o objeto de seu desejo, de duas paixões, de suas aspirações; basta observar o que pensam, o que discutem, o que servem, o que adoram. Considerem as coisas em que as pessoas gastam o seu dinheiro.

14- Imaginemos uma vasilha ou panela cheia de vários pedaços de metal. Estes pedaços não tem uma conexão entre eles, e a cada mudança acidental na postura da panela, também muda a posição relativa dos diferentes pedaços. Se sacode-se a panela ou se a golpeia com o dedo, então o pedaço que originalmente estava acima, em cima dos demais, pode aparecer no meio ou no fundo, enquanto aquele que estava no meio ou no fundo pode aparecer em cima de todos. Não há permanência alguma na posição dos pedaços, e em semelhantes condições não se pode haver nada permanente. Tal é um típico aspecto de nossa vida psíquica. A cada instante há novas influências que mudam a posição dos pedaços; no lugar do que está encima se coloca outro que é seu oposto absoluto. A ciência chama isso de um estado de mescla mecânica. A característica essencial da inter-relação dos pedaços neste estado de mescla é a instabilidade das inter-relações mesmas, e sua variabilidade.
É impossível estabilizar a inter-relação dos pedaços em um estado de mescla mecânica. Mas os pedaços podem fundir-se. A natureza mesma dos pedaços possibilita essa fusão. Para conseguí-la, é preciso acender um fogo especial embaixo da panela; ao esquentar e derreter os pedaços, esse fogo consegue finalmente fundi-los em um só. Fundidos dessa forma, os pedaços ficarão em um estado de composição química. E uma vez assim não poderão ser separados pelo mesmo expediente que os separava antes e mediante o expediente que lhes fazia mudar de posição como era o caso de quando se achavam em um estado de mescla mecânica. O conteúdo da panela se transformou em algo "indivisível", "individual". Isso indica a forma como se constrói o segundo corpo. O fogo que produz a fusão provém da "fricção" que, a sua vez, se produz no homem mediante a luta entre o "sim" e o "não". Se um homem cede a todos os seus desejos, ou se compactua com eles, nunca haverá nele luta alguma, não haverá fricção, não haverá fogo. Mas se havendo-se proposto a alcançar uma determinada finalidade o homem luta contra todos os desejos que impedem seu sucesso, então poderá criar em si mesmo um fogo que transformará gradualmente seu mundo interior em uma integridade única.

15- A imortalidade não é uma propriedade com a qual nasce o homem, mas o homem pode fazer-se imortal.

16- O caminho que conduz ao desenvolvimento das possibilidades ocultas no homem é um caminho que vai contra a natureza, contra Deus mesmo.

17- Os caminhos conduzem ou deveriam conduzir à imortalidade. A vida corrente, a vida de todos os dias, ainda em seus melhores aspectos, leva o homem à morte e não pode levá-lo a nenhuma outra coisa.

18- As religiões ocidentais se degeneraram a tal extremo que já não sobra nada vivo nelas.

19- Essa situação seria verdadeiramente desesperadora se não existisse um quarto caminho.

20- Esse quarto caminho não tem formas definidas como tem os caminhos do fakir, do monge e do yogui. E por sobre todas as coisas o homem tem que ser capaz de achar o quarto caminho, tem que encontrá-lo. Essa é a primeira prova. Não se a conhece tão bem quanto a dos outros três caminhos. Há muita gente que jamais ouviu falar de um quarto caminho, e há aqueles que negam sua existência ou suas possibilidades.

21- No quarto caminho o conhecimento é muito mais exato, muito mais perfeito. O homem que decide pelo quarto caminho sabe que precisa e claramente que substância necessita para seus fins, e sabe o que esta substância pode produzir dentro de seu corpo mediante um mês de sofrimentos, mediante uma semana de tensão emocional ou mediante um dia de exercícios mentais. Mas também sabe que pode introduzir esta substância em seu organismo, desde afora, e sabe como fazê-lo. Desse modo, em vez de empregar um dia de exercícios mentais, como o yogui, ou uma semana de orações como o monge ou um mês de sofrimentos como o fakir, simplesmente prepara e engole uma pílula que contém todas essas substâncias que necessita e dessa forma, sem maior perda de tempo, obtém os resultados que quer.

22- Se a evolução da humanidade chegasse a passar de certo limite ou, para dizê-lo mais corretamente, se a evolução alcançasse um número de homens superior a certa porcentagem, este feito seria fatal para a lua. Na atualidade, a lua se alimenta da vida orgânica na terra, se alimenta da humanidade. A humanidade é parte da vida orgânica; isto significa que a humanidade é alimento da lua. Se todos os homens se tornassem agudamente inteligentes, não iriam querer serem devorados pela lua. Sem embargo, existe por sua vez a possibilidade de evolução, e podem desenvolver-se em indivíduos separados com ajuda de conhecimentos e métodos adequados. Semelhante desenvolvimento pode ocorrer somente para o benefício do indivíduo e vai, por assim dizer, contra os interesses e benefícios do mundo planetário. Isto é o que o homem tem que entender: sua evolução não é necessária senão para ele mesmo. Sua evolução não pode interessar a ninguém mais. E ninguém está obrigado a ajudá-lo nem existe quem tenha intenção de fazê-lo.

23- O homem não tem um "Eu" individual. Mas em contrapartida tem centenas e milhares de pequenos "eus", separados uns dos outros. A princípio se desconhecem uns aos outros, não tomam nunca contato entre si, ou, ao contrário, são hostis, exclusivistas e incompreensíveis entre si. Cada minuto, cada momento, o homem diz e pensa em términos de "eu". E a cada vez trata de um "eu' diferente. Agora é um pensamento, logo um desejo; agora uma sensação, em seguida um novo pensamento. Assim segue a ronda eternamente. O homem é uma pluralidade, e seu nome é Legião.

24- O homem não tem uma verdadeira individualidade. O homem não tem um Grande EU, um EU singular. O homem está dividido em uma multidão de pequenos "eus".

25- Nem assim o mais claro entendimento de suas possibilidades levará o homem a sua realização. A fim de poder realizar tudo quanto prometem essas possibilidades, o homem tem que sentir um poderoso desejo de libertação e estar disposto a sacrificar tudo, a arriscar tudo, com o fim de obtê-la.

26- O homem moderno nasce adormecido, adormecido vive e adormecido morre. Sobre o sonho, seu significado e o papel que desempenha na vida do homem, falaremos mais adiante. Por ora, dediquem-se a pensar uma só coisa: que conhecimento pode ter um homem adormecido? Sobre isso se pensa, recordando à vez que o sonho é nosso principal traço, e não tardará um em advertir que se o homem quer obter conhecimento, tem antes que mais nada, que pensar em como despertar, em como mudar seu ser.

27- Os homens, um dois e três não podem viver conforme os preceitos de Cristo porque a eles só lhes sucedem as coisas. Hoje são uma coisa, amanhã será outra. Hoje estão dispostos a dar sua última camisa e amanhã serão capazes de destruir a quem tenha se negado a dar-lhes sua última camisa. Estão sempre a mercê de qualquer acontecimento fortuito. Não são amos de si mesmos, e em conseqüência não podem decidirem-se a ser cristãos, a serem-no verdadeiramente.

28- A vida orgânica na terra é o que alimenta a lua. Tudo quanto habita a terra, tudo quanto nela vive, as pessoas, os animais, as plantas, tudo é alimento para a lua. A lua é um enorme ser vivente que se alimenta de tudo o que vive e cresce na terra. A lua não poderia existir sem a vida orgânica na terra, e a vida orgânica na terra não poderia existir sem a lua. O que é mais, em sua relação à vida orgânica na terra, a lua é um gigantesco eletromagneto. Se a ação desse eletromagneto fica repentinamente detida, a vida orgânica na terra se derramaria e se faria nada.

29- Todos os maus atos, todos os crimes, todas as ações que constituem um alto sacrifício, todos os feitos heróicos, como todos os atos da vida ordinária, tudo está controlado pela lua. A parte mecânica de nossa vida depende da lua, está sujeita à lua. Se conseguimos desenvolver em nós mesmos uma consciência e uma vontade, e submetemos a nossa vida mecânica e todas as nossas manifestações mecânicas a estas duas coisas, à consciência e à vontade, então nos será possível fugir do poder da lua.

30- Nada há que seja verdadeiramente imortal. Até Deus é mortal. Mas entre o homem e Deus há uma enorme diferença. Deus é mortal de um modo diferente que o homem é mortal. Seria muito mais conveniente que substituíssemos a palavra "imortal" pela idéia de "existência depois da morte". Então Eu contestaria dizendo que o homem tem a possibilidade de seguir existindo depois da morte. Mas uma coisa é a possibilidade, e outra muito distinta é a que isto se realize, que se converta em uma realidade.

31-A fim de poder conhecer o futuro é necessário conhecer o presente em todos os seus aspectos, e também conhecer o passado. Hoje é o que é, devido a que ontem foi o que foi. E se hoje é como ontem, amanhã será como hoje. Quem quer um amanhã diferente, tem que começar a mudar seu hoje.

32- Alguém só pode prever o futuro de um homem. É impossível prever o futuro de máquinas loucas. A direção das máquinas loucas muda a cada instante. Em um momento é de uma certa classe de máquinas e vai em uma direção determinada, e é até possível calcular até onde pode chegar, mas cinco minutos depois, já vai em uma direção completamente distinta e todos os cálculos feitos resultam unicamente em uma série de erros. Em conseqüência, antes de falar sobre o conhecimento do futuro, deve-se saber de que futuro se trata. O homem que quer conhecer seu futuro tem que conhecer a si mesmo. Então poderá saber se vale a pena ou não conhecer o futuro. Algumas vezes, vale mais ignorá-lo. Isto poderá parecer paradoxo, mas nos assiste todo o direito para afirmar que nós conhecemos nosso futuro. Será exatamente o mesmo que foi nosso passado. Nada pode mudar de si mesmo.

33- Como evitar a morte final, como deixar de morrer. Para isso é necessário, antes de tudo, ser. Se alguém muda minuto a minuto, se não há nada nele capaz de sobrepor-se às influências externas, quer dizer que nada há nele capaz de sobrepor-se a morte. Mas se consegue tornar-se independente das influências externas, se chega a criar nele algo capaz de viver por si mesmo, então é possível que este algo não morra. Nas circunstâncias atuais, nós estamos morrendo minuto a minuto. Cada vez que as influências externas mudam, nós mudamos com elas, ou seja, a cada momento morrem muitos de nossos "eus". Se o homem consegue desenvolver em si mesmo um EU capaz de sobrepor-se às mudanças das condições externas, este EU sobreviverá à morte do corpo físico.

34- Se consegue ser o amo de si mesmo, o amo de sua vida, então será também o amo de sua morte.

35- O homem deve ser o amo de si mesmo. Se o homem não consegue ser o amo de si mesmo não tem nada, e nunca poderá ter nada.

36- De todos os desejos, o mais correto que se formulou até o momento é o desejo de ser amo de si mesmo, porque sem sê-lo, nada é possível. E comparados com esse desejo, todos os demais vem a ser simplesmente sonhos infantis, desejos que o homem nem sequer poderia utilizar ainda que lhe fossem concedidos.

37- A liberdade, a liberação, tal deve ser a meta do homem na terra. Chegar a ser livre, chegar a ficar totalmente livre de toda a forma de escravidão: este deveria ser o motivo da luta de todo homem quando passa a dar-se conta de sua situação. Enquanto continue sendo um escravo tanto interna quanto externamente, o homem não tem possibilidade de nenhuma espécie. Mas não poderá deixar de ser um escravo no exterior enquanto o continue sendo interiormente. Em conseqüência, a fim de chegar a ser livre, o homem deve obter sua liberdade interior.

38- O pior dos insultos que se pode lançar a um homem-máquina é dizer que ele não pode fazer nada, que não pode alcançar nada, que não pode mover-se em nenhum sentido, e que ao tratar de ir em pró de algo dado, inevitavelmente criará alguma outra coisa. A verdade é que isso não pode ser de outro modo. O homem-máquina se encontra sujeito à lei dos acidentes.

39- O homem-máquina não pode fazer nada. Para ele, como para tudo quanto o rodeia, as coisas simplesmente sucedem. A fim de poder fazer é indispensável conhecer a lei das oitavas. É preciso conhecer os momentos em que ocorrem os "intervalos' e ser capaz de criar os "choques adicionais' que sejam necessários.

40- Só quando o homem começa a recordar a si mesmo, a recordar-se como EU, lhe é possível despertar. E então a vida circundante cobra um aspecto diferente e um significado distinto. A vida que o rodeia é vista como uma vida de pessoas adormecidas, uma vida de sonho, um verdadeiro sonho. Tudo quanto o homem diz, diz em seus sonhos; tudo quanto o homem faz, faz em seus sonhos. Tudo isso, todas essas coisas carecem de valor. O único que tem um valor real é o despertar ou o que conduz ao despertar.

41- É possível pensar durante mil anos; é possível escrever bibliotecas completas, criar montes de teorias e fazê-los sumido no mais profundo sono e sem possibilidade alguma de despertar. Antes bem, todas essas teorias e livros escritos e concebidos nos sonhos só servirão para aumentar o sonho das outras pessoas.

42- O homem nem sequer suspeita o que se perde pelo mero feito de permanecer dormindo. Como já indiquei, dada a forma como está constituído e organizado, tal como a natureza o criou, o homem pode chegar a ser consciente de si mesmo. Assim foi criado, assim nasceu. Mas o homem nasce no meio de pessoas adormecidas e naturalmente adormece junto com elas quando deveria começar a ser consciente de si mesmo. Tudo concorre a participar neste feito: a forma involuntária como as crianças imitam seus maiores, a sugestão voluntária e involuntária, e essa coisa que chamamos de "educação". E cada intento da criança por despertar cai imediatamente detido. Isto é inevitável. Faz falta muito esforço e muita ajuda a fim de poder despertar mais tarde quando já é ser humano acumulado de milhares de hábitos que o obrigam a dormir. Ainda isto ocorre muito raramente. Na maioria dos casos, quando ainda é criança, o homem perde toda a possibilidade de despertar; sua vida transcorre nos sonhos, e em sonhos morre.

43- As possibilidades do homem são muito grandes. Vocês não podem nem sequer conceber uma sombra do que o homem pode obter. Mas nada se pode obter em sonhos. Na consciência de um homem adormecido, suas ilusões, seus "sonhos', estão mesclados com a realidade. Vive em um mundo subjetivo e não pode fugir dele. Esta é a razão porque ele nunca pode utilizar todos os poderes que possui e também a razão porque vive sempre dentro de uma pequena parte de si mesmo.

44- É que nós nos damos conta quão contraditórios e quão hostis são entre si os diferentes "eus" que formam nossa personalidade. Se o homem sentisse todas essas contradições, sentiria o que realmente é. Sentiria que está louco.

45- O despertar somente é possível para aqueles que buscam e desejam, para aqueles que estão dispostos a lutar consigo mesmos, e a trabalhar sobre si mesmos durante muito tempo, e muito persistentemente, a fim de conseguir esse despertar. Para isso é preciso destruir os "limites", dito de outra forma, é necessário sair e ir ao encontro de todos aqueles sofrimentos interiores relacionados com as sensações das contradições. E mais, a destruição dos "limites" requer em si mesmo um prolongado esforço e o homem tem que estar de acordo com essa classe de trabalho e tem que dar-se plena conta de que o resultado não será senão toda sorte de incômodos e de sofrimentos. Mas ocorre que o juízo interno é o único fogo que pode fundir em uma só matéria todos os pedaços que há na panela que mencionei antes, e é o único meio de criar a unidade que o homem não tem naquele estado em que começa a estudar a si mesmo.

46- As pessoas gostam muito de falar sobre a moralidade. Mas a moralidade é mera auto-sugestão. O que faz falta é juízo interno. Nós não ensinamos moralidade. Ensinamos a maneira de achar o juízo interno. Às pessoas isto é desagradável. Dizem que nós não temos amor. Trata-se simplesmente que nós não fomentamos a hipocrisia nem a debilidade. Ao contrário, nós arrancamos todas as máscaras.

47- Se um homem se dá conta que está adormecido e quer despertar, então tudo quanto o ajude a despertar será bom, e tudo quanto o impeça de despertar será mal. Mas isso tem validade unicamente para aqueles que querem verdadeiramente despertar, para aqueles que compreendem que estão adormecidos. Aqueles que não entendem isso, aqueles que não se dão conta de que estão dormindo, e aqueles que não podem querer despertar, não podem ter uma compreensão do bem e do mal. E como a esmagadora maioria das pessoas não se dá conta de que estão adormecidas, nem o bem nem o mal existem para elas.

48- A renúncia às próprias decisões, a subordinação de sua vontade à vontade de outro, tudo isso pode representar insalváveis dificuldades para o homem que não tenha compreendido, de antemão, que não está sacrificando nem modificando nada em sua vida, que durante toda a sua vida esteve sujeito a uma ou várias vontades estranhas a si mesmo, e que nunca teve verdadeiras decisões próprias. Mas, no geral, o homem não é consciente dessas coisas. Considera que tem o direito de eleger livremente. Resulta-lhe extremamente difícil renunciar a ilusão que dirige e organiza sua vida como ele a quer. Mas não existe possibilidade alguma de trabalho sobre o mesmo até que ele tenha se liberado desta ilusão. Deve dar-se plena conta de que não existe; deve dar-se plena conta que não pode perder nada, porque em realidade nada tem a perder; deve dar-se plena conta que sua "nulidade" é no sentido mais amplo da palavra.

49- Deve entender-se que o homem consiste de duas partes: essência e personalidade. A essência do homem é aquilo que lhe é próprio. A personalidade "não lhe é própria". Quero dizer com isso que a personalidade vem de fora, do que tem aprendido, do que reflete. Todas as características das impressões externas que ficaram em sua memória ou em suas sensações criadas pelo meio da imitação, tudo isso é a soma do que "não lhe é próprio", do que forma sua personalidade.

50- A criança pequena não tem personalidade de nenhuma espécie. É o que verdadeiramente é. É essência. Seus desejos, seus gostos, suas aflições, seus desgostos, tudo isso expressa o que realmente é.

51- A essência é a verdade do que há no homem; a personalidade é o falso. Mas em proporção ao crescimento da personalidade, a essência se manifesta mais e mais raramente, mais e mais debilmente, e a princípio ocorre que o crescimento e o desenvolvimento da essência se detém em uma idade muito jovem e deixa por completo de crescer.

52- O desenvolvimento da essência depende do trabalho em si mesmo. Um momento muito importante no trabalho em si mesmo é quando o homem começa a distinguir entre sua personalidade e sua essência. O verdadeiro EU de um homem, sua individualidade, só pode crescer partindo dessa essência.

53- E mais, ocorre também muito a princípio que essência morre em um homem enquanto sua personalidade e seu corpo ainda estão vivos. Uma considerável porcentagem das pessoas que vemos pelas ruas de qualquer grande cidade estão já completamente vazias por dentro; por dizer, já estão verdadeiramente mortas. É uma grande sorte que nós não vejamos nem saibamos a verdade dessas coisas. Se verdadeiramente soubéssemos quantas pessoas estão verdadeiramente mortas e se soubéssemos quantos desses cadáveres animados governam a nossa vida, ficaríamos loucos de horror. E em realidade se sucede que existem pessoas que se tornam loucas porque algo disto chegam a descobrir sem haver recebido a necessária preparação, por dizer que chegam a ver algo que não deveriam ver. A fim de poder ver essas coisas sem perigo algum, é necessário estar em um dos caminhos. Se um homem incapaz de fazer algo por si mesmo chega a descobrir a verdade, por certo que se tornará louco.
Mas isso se sucede raras vezes. No geral, tudo está disposto de tal modo que nenhuma pessoa pode ver a verdade prematuramente. A personalidade não pode ver aquilo que não gosta, e aquilo que não interfere com sua própria vida. Nunca vê o que não gosta. Está bem e mal à vez. É boa coisa para quem quer dormir, e péssima para quem quer despertar.

54- Devemos "recordar-nos a nós mesmos". Mas isso será possível unicamente se temos em nós a suficiente energia para essa íntima recordação.

55-A resposta é que cada homem dispõe da suficiente energia para começar a trabalhar em si mesmo. Só faz falta aprendermos a direcionar a maior parte da energia que possuímos para um trabalho benéfico, em vez de desperdiçá-la improdutivamente.

56- Os caminhos errados são muito numerosos, e na maioria dos casos não conduz a parte alguma. O homem se encontra nesses sempre dando voltas em um mesmo ponto crendo que vai a alguma parte.

57- Um homem pode nascer, mas a fim de nascer tem que primeiro morrer, e a fim de morrer tem que primeiro despertar.

58- O homem tem que livrar-se das mil e uma amarras pequenas, apegos e identificações que lhe sujeitam à situação em que se encontra. Está sujeito a tudo quanto é sua vida, sujeito à sua imaginação, sujeito à sua estupidez, sujeito ainda aos seus sofrimentos, possivelmente a seus sofrimentos mais que a qualquer outra coisa. Tem que livrar-se dessas amarras. O apego às coisas, a identificação com as coisas, mantém viva no homem uma legião de pequenos "eus" que são inúteis. Todos esses "eu" tem que morrer a fim de que possa nascer o grande EU. Mas como se pode fazê-los morrer? Por certo que eles não querem morrer. Justamente a esta altura é quando a possibilidade de resgate vem ao resgate do homem. Despertar significa dar-se conta da nulidade que alguém é; por dizer, dar-se conta da completa e absoluta mecanicidade de alguém e de sua completa impotência. Não basta dar-se conta disso filosoficamente em palavras. É necessário dar-se conta em feitos, através de feitos claros, de feitos simples e concretos nas coisas de todos os dias. Quando o homem começa a conhecer-se a si mesmo ainda que seja um pouco, também começa a ver que tem ou leva em si mesmo algo que lhe se horroriza.

59- Antes que nada o homem deve dar-se conta que o sonho que o domina não é um sonho normal, é um sonho hipnótico. O homem vive hipnotizado e este estado hipnótico se mantém e se fortifica continuamente nele. Alguém poderia chegar a pensar que há certas forças para as quais é útil e as quais ganham muito ao manter o
homem neste estado hipnótico, impedindo-o de ver a verdade e impedindo-o de dar-se plena conta da situação em que se encontra.

60- É possível que vocês tenham se encontrado em algum lugar com a palavra "kundalini", especialmente na literatura ocultista com "o fogo de kundalini", ou a "serpente de kundalini". Utiliza-se a princípio essa expressão para designar certo tipo de uma estranha força que jaz no homem e que pode despertar-se. Mas nenhuma das teorias conhecidas oferece uma explicação correta sobre o que verdadeiramente é a força de kundalini. Algumas vezes se relaciona com o sexo, com a energia sexual, ou seja, com a possibilidade de se utilizar a energia sexual com outros fins. Este último está totalmente equivocado por quanto kundalini pode achar-se em qualquer coisa. E sobretudo, kundalini não é algo desejável em forma alguma e muito menos pode favorecer o desenvolvimento do homem. É muito curioso ver como esses "ocultistas" se apoderaram de uma palavra que alguém achou em alguma parte, e como alteraram seu significado tão completamente que de uma coisa terrível e perigosa fizeram algo que crêem que vale a pena esperar e ansiar, como se fosse alguma benção.

61- Kundalini é em realidade uma força que se introduziu no homem para mantê-lo em sua atual condição. Se os homens se dessem conta, se pudessem ver a realidade de sua situação e todo o horror que ela implica não poderiam permanecer onde estão um só instante mais. Começariam a busca por uma saída, e logo a achariam, porque há uma saída, uma porta de escape, mas os homens não a podem ver porque, simplesmente, estão hipnotizados. Kundalini é a força que os mantém neste estado hipnótico (enquanto não está desperta). Despertar significa pois desipnotizar-se. Justamente nisso está a principal de todas as dificuldades, e pelo mesmo, reside a garantia de sua possibilidade de êxito porque não há nenhuma razão orgânica para o sonho, e o homem pode despertar. Mas isso é a teoria, porque na prática é quase impossível, porque enquanto o homem desperta um pouco e abre os olhos, todas as forças que motivaram seu sono caem novamente sobre ele com dez vezes mais força, e o homem volta a cair adormecido; a princípio até sonha que está despertando ou está desperto.

62- O que é que necessita para despertar um homem adormecido? Necessita um bom choque! Mas quando o homem está profundamente adormecido, não basta um só choque. Necessita estar submetido a um longo período contínuo de choques.

63- A mais difícil de todas as barreiras é a conquista da mentira. O homem mente tanto e tão constantemente tanto a si mesmo como aos demais e de tal forma, que deixa de dar-se conta que está mentindo. Não obstante, é preciso conquistar a mentira.

64- Os esforços ordinários não contam para nada. Só valem os super-esforços. Assim é com tudo e para todas as coisas. Aqueles que não querem fazer super-esforços, fariam muito melhor em abandonar tudo.

65- Mais vale morrer fazendo esforços para despertar que viver sumido no sonho. Este é um aspecto. Outro aspecto é que não é tão fácil morrer em conseqüência de um esforço. Temos muitíssimo mais força do que acreditamos. Mas jamais a usamos.

66- O centro se conectou diretamente com o acumulador grande. Esse acumulador contém uma enorme quantidade de energia. Conectado com o acumulador grande o homem pode, literalmente, obrar milagres.

67- Não faz falta ter tanto medo dos esforços. De forma alguma se corre perigo de morrer por causa disso. É muito mais fácil morrer de inanição, de preguiça e de temor de fazer esforços.

68- Temos que aprender a sacar energia diretamente do grande acumulador.

69- A fim de acercar-se a esse sistema com seriedade, é preciso estar já desiludido, ante tudo de si mesmo. Por dizer, estar verdadeiramente desiludido de seus poderes e dos caminhos velhos e trilhados. O homem não pode sentir o valor deste sistema até que não se tenha desiludido do que está fazendo, do que está buscando.

70- O homem tem que estar suficientemente desiludido dos meios e métodos ordinários, e à vez tem que pensar e aceitar a idéia que pode haver algo em alguma parte. Se conversa-se com um homem que está nessa situação, pode discernir o sabor da verdade no que se lhe diz, ainda quando se lhe diga rudemente. Mas se fala-se com algum homem que está convencido de outra coisa, tudo quanto se lhe diga parecerá absurdo e nunca prestará atenção seriamente. Não vale a pena perder tempo com essas pessoas. Este sistema é para aqueles que já tenham buscado, que já tenham se queimado. Aqueles que não buscaram e não buscam em forma alguma, por certo que não necessitam. E aqueles que não se queimaram tão pouco necessitam.

71- O sexo desempenha um papel tremendamente importante em manter a mecanicidade da vida. Tudo o que fazem as pessoas está relacionado com sexo. A política, a religião, a arte, o teatro, a música. Tudo é sexo. Vocês acreditam que as pessoas vão a um teatro para ver alguma obra nova? Ou que vão à igreja verdadeiramente para rezar? Isso o fazem para guardar as aparências. O principal, tanto no teatro como na igreja, é que haverá muitos homens e muitas mulheres. Isto constitui o centro de gravidade de todas as reuniões. O que vocês acreditam que levam as pessoas aos cafés, aos restaurantes, às festas? Uma coisa somente: o sexo.
Essa é a principal força motriz de todo o mecânico. Todo o sonho do homem, toda a hipnose a que está submetido, tudo depende do sexo.

72- Este estado de coisas foi criado por forças cósmicas, e são as forças cósmicas que tem o controle da situação. E vocês me perguntam: pode deixar-se assim ou deve modificar-se? Nem Deus mesmo poderia mudar o feito. Recordam vocês o dito sobre as 48 ordens das leis? Nada pode mudá-las, mas alguém pode libertar-se de um bom número delas; por dizer, existe a possibilidade de mudar o estado das coisas para ele mesmo. É possível fugir da lei geral. Vocês já deveriam ter compreendido que neste caso, como em todos os outros, não se pode mudar a lei geral. Mas alguém pode mudar sua própria situação com respeito a essas leis; pode-se fugir da lei geral. Tanto mais desde que a lei sobre a qual estou falando, ou seja, o poder que o sexo exerce sobre as pessoas, inclui muitas possibilidades diferentes. Inclui a principal forma de escravidão, e por isso mesmo inclui a principal e maior de todas as possibilidades de liberação. Isto é o que vocês tem que entender definitivamente. O "novo nascimento" de que temos falado tantas vezes antes, depende tanto da energia sexual como o nascimento físico ou a propagação das espécies.

73- A abstinência sexual é necessária só em certos casos, ou seja, para certos tipos. Para outros não é necessária em absoluto. E para outros ela vem por si mesma quando começa a transmutação. Explicarei isso com maior clareza. Para certos tipos é necessário observar uma prolongada abstinência sexual a fim de que a transmutação comece. Isso significa que sem uma prolongada e completa abstinência sexual a transmutação não pode começar. Mas uma vez que a transmutação começou, já não é necessário abster-se. Em outros casos, por dizer com outros tipos, a transmutação pode começar em uma vida sexual normal, e ao contrário de outros tipos, pode começar antes e até desenvolver-se muitíssimo melhor com abundante gasto externo de energia sexual. No terceiro caso ainda, uma vez começada a transmutação, ela absorve toda a energia sexual e põe fim à vida sexual normal ou ao gasto externo de energia sexual.

74- Devem vocês compreender onde jaz o mal principal e que é o que constitui a verdadeira escravidão. Não reside no sexo propriamente, senão no abuso do sexo.

75- É impossível aplicar a um homem que ainda não começou a trabalhar em si mesmo e que ignora a estrutura da máquina humana, o que verdadeiramente significa "o abuso do sexo"; isto é tão impossível como indicar-lhe o que deve fazer para evitar esses abusos. O trabalho correto em si mesmo começa com a criação de um centro de gravidade permanente. Quando se forjou um centro de gravidade permanente, todo o demais começam a achar seu lugar e a distribuir-se em subordinação a ele.

76- Somente trabalharei com aqueles que me possam servir para alcançar meu objetivo. E útil pode ser-me tão só aquele que tenha decidido lutar firmemente consigo mesmo; por dizer, lutar contra sua mecanicidade.

77- As pessoas temem o silêncio mais que qualquer outra coisa, e nossa tendência de falar sem motivo algum nasce de um sentido de auto-defesa, e sempre se baseia em uma resistência ou repugnância para ver algo abertamente, uma resistência para confessar algo a si mesmo.

78- O que as pessoas tem que aprender a sacrificar são seus sofrimentos. Também é muito difícil sacrificar os próprios sentimentos. O homem está sempre disposto a renunciar qualquer de seus prazeres, mas de forma alguma está disposto a renunciar seus sofrimentos. O homem foi feito de tal modo que não há nada em sua vida a que esteja mais apegado que aos seus sofrimentos. E é preciso estar livre do sofrimento. Ninguém que não está livre do sofrimento, ninguém que não tenha sacrificado seu sofrimento, pode em realidade trabalhar. Mais adiante teremos muito o que dizer sobre o sofrimento. Nada pode obter-se sem sofrimentos, mas por vez tem que se começar por sacrificar seus sofrimentos. Agora decifre você o que quero dizer com tudo isso.

79- O desenvolvimento da máquina humana e o desenvolvimento do ser começam com uma nova e desacostumada função de, justamente, a máquina.

80- O que mais necessita a cultura contemporânea é autômatos. Não há dúvida de que as pessoas estão perdendo seus hábitos de independência, que se estão convertendo em autômatos, em partes de uma máquina. É impossível prever o final de tudo isso e qual é a saída, ou se há uma saída e se alguma vez terá um fim. No meio de tudo isso só uma coisa é certa: a escravidão do homem vai em contínuo andamento. Cresce a cada dia. O homem está convertendo-se em um escravo voluntário. Já não precisa cadeias. Começou a enamorar-se com sua escravidão, a sentir orgulho dela. E isto é o mais terrível e o mais trágico que se pode suceder a um homem.

81- Duzentas pessoas conscientes, se é que existissem e o considerassem legítimo, poderiam mudar totalmente a vida na terra.

82- Cada classe de criatura, cada grau de ser, define-se pelo que lhes serve de alimento e por aquilo para o qual eles mesmos servem de alimento à sua vez. Na ordem cósmica cada classe de criaturas se alimenta de uma classe definida de criaturas inferiores e a sua vez é uma classe definida de alimento para criaturas superiores.

83- No trabalho só contam os super-esforços, ou seja, aqueles esforços que passam do normal, que vão além do que é necessário; os esforços ordinários não se levam em conta.

84- Pecado é aquilo que mantém o homem amarrado num ponto quando o homem decidiu mover-se, se é que é capaz de mover-se. Os pecados somente existem para as pessoas que estão no caminho, ou que estão se aproximando dele. Pecado é aquilo que detém o homem nesse propósito, aquilo que o ajuda a enganar a si mesmo e pensar que está trabalhando, quando em realidade só dorme. Pecado é o que faz dormir as pessoas quando decidiram despertar. E o que é que mais faz dormir ao homem? Novamente tudo aquilo que não é necessário, que não é indispensável. O indispensável está sempre permitido. Mas além do indispensável começa a hipnose. Mas tem que recordar que isto se refere unicamente àqueles que estão trabalhando, ou àqueles que se consideram uma parte deste trabalho. Este trabalho consiste em submeter-se voluntariamente a um sofrimento temporal a fim de ver-se livre do sofrimento eterno. Mas as pessoas têm medo de sofrer. Querem dispor de seus prazeres agora, imediatamente e para sempre. Não querem entender que o prazer é um atributo do paraíso e que isto é algo que tem que se conquistar. Isto é necessário, mas não em razão de leis arbitrárias ou de alguma moral interna, senão em razão de que se o homem obtém seus prazeres sem antes havê-los ganho com seu esforço, não poderá conservá-los e os mesmos prazeres se converterão em sofrimento. Tudo está em saber conquistar o prazer e em poder conservá-lo. Todo o assunto está em poder fazê-lo. Quem seja capaz de fazê-lo, nada tem que aprender. Mas o caminho até essa conquista está no sofrimento.

85- Os exercícios corretos que conduzem diretamente à dominação do organismo e a submeter suas funções conscientes e inconscientes à vontade, começam com os exercícios respiratórios. Se não se domina a respiração, não se domina nada. Mas dominar a respiração está longe de ser coisa fácil.
Fonte:  Fragmentos ("Em busca do milagroso - Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido") Ouspenski
http://prezadocarapalida.blogspot.com.br/2012/10/os-eus-permanecer-adormecido-ou.html
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