5 de set de 2013

O Mito da Igualdade




"A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade... Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real". 

Ruy Barbosa


MITO DA IGUALDADE
Por Raphael M.S.


A pior forma de injustiça é tentar tornar iguais coisas desiguais” – Aristóteles

Toda sociedade se estrutura ao redor de Mitos fundadores. Mito não é, como pressupõe o vulgar vernáculo racionalista, sinônimo de ‘mentira’. Não é uma ‘mentira’ porque não é uma narrativa de um fato histórico, e não sendo narrativa de um fato histórico não pode ser dito nem ‘verdadeiro’, nem ‘falso’, a partir de uma perspectiva historicista. 
 
Um Mito é um continente (no sentido de uma forma que contém um conteúdo, não no sentido geográfico, obviamente…) de relações entre entes, dotado de máxima significação por uma valoração realizada pela Vontade de um Povo. 
 
Um Mito é uma representação simbólica do impulso fundador e condutor de uma sociedade, justificando o surgimento daquela sociedade e estabelecendo todas as pautas culturais, as quais a mesma deverá obedecer em seu desenvolvimento.
O fato de não ser uma narrativa de um fato histórico, porém, não isenta um Mito de ser objeto de um juízo de ‘verdade’. Apenas altera o âmbito no qual tal juízo deve ser realizado. 
 
A ‘verdade’ de um Mito está contida em sua capacidade de ‘afirmar a Vida’ do Povo no seio do qual ele surgiu, ou seja, de promover a expansão e fortalecimento das potencialidades criativas de um Povo e de sua vitalidade. 
 
Um Mito incapaz de afirmar a Vida, ou que faça o contrário, é necessariamente auto-contraditório e, portanto, falso. 
 
O Mito, portanto, para ser válido deve ser eminentemente realista enquanto Ideia. A negação das verdades existenciais eternas do Homem, dos seus fundamentos existenciais, constitui propriamente ‘negação da Vida’ e já identifica intuitivamente um Mito como absolutamente falso. 
 
Um Mito é uma realidade simbólica eternamente presente em todas as sociedades, independentemente de seu ‘nível tecnológico’, de seu ‘progresso material’, ou de seu posicionamento frente à religiosidade. Existirá tanto em tribos primitivas e supersticiosas quanto em sociedades cientificistas e ateias. 
 
Entre os muitos Mitos que ocupam uma posição central nas sociedades ocidentais modernas, o principal e o mais nefasto de todos é o Mito da Igualdade. Nenhum outro Mito é mais fanaticamente defendido, e nenhum pode ser tão ridiculamente falso e prejudicial às sociedades nas quais ele virulentamente se instala, como este. 
 
Esse Mito pode ser formulado de duas maneiras. Ou ‘todos os Homens são iguais’, ou então, ‘todos os Homens não são iguais, mas deveriam ser.’ A primeira é simplesmente uma formulação míope e selvagem, a segunda é uma formulação covarde dos que, tendo sido forçados a reconhecer a surrealidade da crença na Igualdade, tentam salvar o Mito transplantando-o retoricamente para o âmbito do ‘dever-ser’. 
 
Esse afastamento metafísico da Igualdade, que constitui verdadeira sacralização, possui o interessante condão de nos revelar as autênticas origens desse curioso Mito. 
 
Tendo sido apresentado ‘filosoficamente’ ao Ocidente por meio da tradição iluminista, a qual supostamente deveria ser superior à tradição medieval por ser ‘racionalista’ e ‘ateia’, o Mito de Igualdade parece possuir algum tipo de ‘aura de respeitabilidade’, como se o fato desse Mito se originar de uma tradição racionalista o tornasse ‘real’, ou ‘mais real’. 
 
O Mito da Igualdade, desconhecido na Antiguidade, está originariamente enraizado, porém, exatamente na tradição teológica da cristandade medieval e são exatamente as ciências empíricas as fontes dos principais ‘embaraços’ constrangedores dos seguidores dessa teologia contemporânea. Aparentemente, os iluministas e todos os seus herdeiros simplesmente rejeitaram aquilo que há de mais acessório no Cristianismo, a crença em Deus, permanecendo profundamente supersticiosos e cristãos em tudo aquilo que é filosoficamente relevante. 
 
Constantemente, porém, nós somos colocados frente à realidade da profunda e radical desigualdade entre todos os homens em suas aptidões, e com o ‘problema’ de que, inevitavelmente, haja homens mais capazes do que outros. 
 
Não digo apenas homens capazes em certa atividade, e outros homens capazes em outras, mas sim homens absolutamente mais capazes do que muitos outros em todas as áreas. Poucos exemplos são tão simples e claros, como o da criança que consegue notas excelentes sem estudar, enquanto seu colega se esforça profundamente em seus estudos conseguindo no máximo apenas resultados medianos. 
 
Como subterfúgio covarde, os igualitários então são obrigados a recorrer a uma variação da ‘igualdade metafísica’ da teologia cristã. Segundo a teologia cristã, os homens são ‘iguais diante de Deus’, possuem exatamente ‘almas idênticas’, e, portanto, todas as diferenças entre os homens são apenas contingentes, relativas e efêmeras. Os homens seriam iguais no Paraíso, na Eternidade. 
 
Analogamente, os igualitários que reconhecem a desigualdade natural entre os homens, afirmam que por sua vez existe algum nebuloso tipo de ‘igualdade moral’, que reside em algum ‘plano abstrato’ e, por isso, os homens deveriam ser ‘tratados’ com igualdade, formulações metafísicas estas que eles são incapazes de explicar e justificar. Em verdade, dificilmente alguém verá um (pseudo) filósofo ou pensador igualitário até mesmo se dispor a justificar suas crenças. Nem Rousseau, nem qualquer dos iluministas fizeram algo similar, para além de balbuciarem algumas semi-explicações insatisfatórias. 
 
Em geral, tais justificativas tentam se apoiar na noção de uma ‘Razão’ como faculdade abstrata e universal. Ocorre que a tal ‘Razão’ como faculdade abstrata tampouco existe. O que existe é a ‘Razão’ como instrumento cognitivo prático, a qual é tão universal aos homens quanto sua ‘Altura’. Todos possuem alguma ‘Altura’. Também, todos possuem algo como uma ‘Razão’. Porém, assim como os homens possuem alturas variáveis, a qualidade desse instrumento cognitivo chamado ‘Razão’, também é absolutamente individual e variável entre os homens. 
 
Não há, portanto, qualquer parâmetro possível para um estabelecimento de uma Igualdade entre os homens, a não ser recorrendo-se às superstições teológicas. Repetindo mais claramente: A Igualdade é uma mentira, uma farsa, um engodo, uma trapaça, uma tramoia. Não possui qualquer fundamento real, jamais teve, nem jamais poderá ter. Quem crê na ‘Igualdade’, ou está fingindo, ou simplesmente sofre de dissonância cognitiva. As sociedades modernas estão, então, fundadas numa farsa e são, consequentemente, eminentemente decadentes e filosoficamente ‘más’. 
 
A ‘Igualdade’ é uma impossibilidade ontológica. Um ente é ele mesmo por conta de suas características individuais. Eu sou ‘eu’, por conta daquilo que me diferencia de tudo que é ‘não-Eu’. 
 
Toda a multiplicidade de entes se realiza como multiplicidade pela Diferença, pela Individualidade. Assim, retirando-se os elementos individuais, a ‘Diferença’, que é o meio de alcançarmos a ‘Igualdade’, a partir do momento que tivermos dois entes idênticos, não teremos mais dois entes, mas apenas um. 
 
Se a Diferenciação é o que gera a multiplicidade de entes, ou seja, aquilo a que chamamos ‘Universo’, ‘Realidade’, a desconstrução das diferenças entre os entes só pode ser vista como uma tentativa de se engajar em um processo de destruição do Universo. O ‘Igualitarismo’, é uma teologia ‘Anti-Vida’, uma teologia da destruição. 
 
Não possuindo base natural, ou seja, real, o Mito da Igualdade só pode se sustentar por meio da coação oficial do Estado, ou por meio das formas difusas de coação, originadas da infraestrutura social, principalmente dos meios de comunicação e da educação. A principal demência derivada do Mito da Igualdade consiste exatamente na crença de que ‘se não há igualdade, isso é um erro, pois deveria haver’, e agir com base nesse preceito teológico, sustentando e tentando impor a ‘Igualdade’ frente a uma Realidade indiferente e hostil aos retardos supersticiosos dos homens. 
 
Se não há igualdade, deveria haver’. Por quê? Por quê deveria haver igualdade? De onde se pode retirar a legitimidade para se estabelecer como Juiz da Natureza? Não se pode. Isso não existe onde há qualquer tipo de reflexão autêntica. E como se pode derivar um ‘dever ser’, de um ‘não ser’? Não se pode. Não há qualquer elo de necessidade, seja lógico, ontológico ou existencial, entre esses dois juízos. 
 
Inevitavelmente, a única fundação possível, a única fonte de legitimidade para esse juízo falso, é novamente a teologia cristã, a superstição bárbara. Se os homens possuem uma ‘essência’ igual. 
 
Se todos os homens são iguais em um plano abstrato, seja teológico, seja racional, então se deve fazer o possível para atualizar essa potência igualitária metafísica na realidade, como se estivesse a criar um ‘Paraíso na Terra’, como se quisesse promover a materialização da ‘Jerusalém Celeste’. 
 
Vê-se, portanto, que o ‘Mito da Igualdade’ possui fortes características messiânicas e escatológicas, principalmente por estar intimamente associado a outro Mito, o do ‘Progresso’. 
 
As consequências sociais dessa teologia anti-humana são evidentes. Todos os entes só podem ser aquilo que são, e nada mais. Sendo as diferenças entre os entes ontológicas e essenciais, qualquer tentativa de se gerar igualdade só pode ser efetuada nos entes que se diferenciam nos graus de uma mesma qualidade.
Ocorre, porém, que o que é inferior em grau em uma certa característica, não pode se elevar para além dos limites da própria capacidade. Ao contrário, o que é superior em grau, pode se rebaixar, pois já guarda consigo, a priori, todas as gradações que lhe são inferiores.
 
Isso significa basicamente que todo processo de equalização se realiza exclusivamente mediante uma ‘nivelação por baixo’, por uma mediocrização imposta ao que é superior, para que ele se aproxime do que é inferior. 
 
Pensemos um cavalo de corrida e um ‘burrico’. Queremos torná-los iguais. ‘É injusto que o cavalo de corrida possa correr mais que o burrico! O burrico não merece isso!’. Que faremos então? 
 
Poderemos tentar ‘educar’ o burrico a correr como um cavalo de corrida.
Logo perceberemos, porém, que isso é impossível. 
 
O ‘burrico’ poderá correr um pouco mais do que já corre, mas apenas dentro das limitações já contidas nas próprias potencialidades dele mesmo. 
 
Se ao invés de nesse momento percebermos que a ‘Igualdade’ é um engodo e resolvermos sabiamente que o cavalo de corrida e o ‘burrico’ devem ser utilizados naquilo que cada um tem de seu, ao invés de equalizados, quisermos continuar nesse projeto igualitário demente, qual será a opção restante? Aleijar o cavalo de corrida. Apenas assim será conquistada a Igualdade. 
 
Parece, porém, que a maioria das pessoas crê em algo que não só é impossível, como também prejudicial para a sociedade. As razões para essa crença são duas apenas. 
 
A primeira é a soma do ressentimento e da inveja daqueles que enxergam a si mesmos como incapazes frente a semelhantes mais afortunados. O desejo pela ‘Igualdade’ nesse caso não passa de manifestação de um medíocre sentimento vingativo. 
 
A segunda, o desejo por ‘Igualdade’ dos que não são incapazes, surge a partir de um autodestrutivo senso de ‘piedade’, e de uma deficiência mental, uma ‘dissonância cognitiva’. 
 
Inevitavelmente, esse Mito levará o Ocidente à ruína. Será uma ruína merecida, porém. Restará, para os que sobrarem, a missão de construir uma nova civilização sobre fundações mais sólidas. 
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