23 de fev de 2014

Ainda os velhos padrões de manipulação da informação, infelizmente!


Ainda os velhos padrões de manipulação da informação, infelizmente! 

Para o pessoal de memória curta que alerta que a Venezuela está descredenciando a CNN do território nacional (Detalhes aqui), segue notícia que, eventualmente, pode interessar: “Estados Unidos aprovam medida para interferir no sinal da TV Sul” (Veja aqui).
Além de tentar interferir no sinal da Telesur na própria Venezuela, os EUA tentam impedir a atuação da emissora no país (bem como já fez o presidente do México), por meio de diversos artifícios conhecidos dos colegas, como o não credenciamento em coletivas.
Pelo simples princípio da reciprocidade, já seria mais do que o suficiente para o presidente venezuelano Nicolás Maduro adotar a medida, soberana. Lembremos que a CNN é uma espécie de emissora queridinha da Administração Obama, em contraposição a outras emissoras locais, bem mais críticas.
A justificativa para o atropelo à soberania do país latino-americano em relação ao sinal da Telesur: a “necessidade de contrapor o anti-americanismo” do então novo canal, fundado por Uruguai, Argentina, Cuba e Venezuela.
Curioso também o “esquecimento” geral sobre a briga entre Obama e a FoxNews. Naquela ocasião, em 2009, a Administração Obama chegou a chamar a emissora de “braço do Partido Republicano” (o que, ora bolas, é verdade). Detalhes aqui.
Nesse período, a Casa Branca chegou a parar de receber a FoxNews e os descredenciou de diversas coletivas importantes.
Claro que não se justifica um ato de restrição à liberdade de expressão, evidentemente, porém igualmente claro está, para mim, que uma coisa é fazer mídia com posicionamento político. Outra, totalmente diferente, é fazer política por meio da mídia.
Não é esse o papel da imprensa, pelo menos segundo o discurso oficial da própria imprensa. Mas sempre foi, na verdade, ao longo de todos esses séculos, o papel dos principais meios de comunicação, como sabemos: fazer política (vide o posicionamento da Folha sobre “como ela pensa”, em que se disse fã do liberalismo, e não de qualquer outra corrente econômica). Quem lê jornais ao longo da História sabe muito bem disse: não existe e nunca existiu “imparcialidade” no jornalismo.
Interessante observar, independente deste debate, que o mesmo tipo de acontecimento continua a receber tratamentos bastante distintos, o que por si só é notável. Do Norte industrial para o Sul subdesenvolvido (porém cheio de recursos), uma notinha ou outra, quando muito. Do Sul para o Norte, ALERTA VERMELHO.
Notável, também, que 99% das pessoas que reclamam da medida nunca assistiram, nem de curiosidade, a CNN por lá. Ou mesmo deram uma passada pelas emissoras de TV e rádio, 90% privadas e de oposição sistemática ao chavismo.
Apoiadora convicta do “quanto pior melhor”, contexto que já levou a oito mortos no país, a CNN diz para os norte-americanos (e para quem quiser ver, pois está na Internet) que Leopoldo López, um opositor com uma retórica tão violenta que não conta com o apoio político nem sequer de setores da próprio oposição (como Capriles, mais moderado, detalhes aqui) –, é tido como “el estudiante estrella de personalidad carismática” (Veja aqui).
Com isso, sob qualquer hipótese, eu insisto que não desejaria um mundo com menos liberdade de expressão — e o governo da Venezuela parece, ao meu ver, um dos menos hábeis para lidar com o tema na América Latina. E eu honestamente acho lamentável mais esse erro político de Maduro. No entanto, esse tipo de cobertura, enviesada e desinformada, gera um nível de ignorância surpreendente.
Até hoje, por exemplo, continuam a me chegar supostos relatos de que já morreram entre mil e 3 mil pessoas na Venezuela — quando os números reais chegam, se muito, a 10 fatalidades, sem qualquer notícia ou evidência sobre a identidade dos encapuzados que estão atirando a esmo na multidão. A não ser, claro, a palavra de William Waack — o único jornalista no mundo que parece ter esta informação de que foi, de fato, Maduro que encomendou as mortes… Uma pena ele não compartilhar a prova do crime.
Fica para mim uma questão no ar: quem difunde este tipo de informação? Quem compra? E, mais, quem tem interesse em vendê-la? Talvez o senador Álvaro Dias, do PSDB do Paraná, pelas interessantes “matérias investigativas” (Veja aqui) publicadas em seu site ligando diretamente Dilma aos atentados na Venezuela, seja uma das pessoas que tenha a resposta.
Haja paciência para lidar com tantos políticos jogando com a vida das pessoas com o único objetivo de obter eleitores. E haja eleitores desavisados, cada vez mais numerosos nas democracias contemporâneas.
*Herivelto Quaresma é jornalista e blogueiro carioca. 
http://www.debatesculturais.com.br
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