27 de dez de 2013

O Falso Princípio Da Nossa Educação

Como nosso tempo está à procura do nome que melhor poderia exprimir seu espírito, muitos termos foram propostos, e todos afirmando ser o bom. Para qualquer lado que nos voltemos, a época atual apresenta o espetáculo mais caótico dos tumultos partidários, e os grandes homens do momento se reúnem, tais como abutres, ao redor da herança caduca do passado. Em toda parte abundam os despojos políticos, sociais, eclesiásticos, artísticos, morais e outros, e enquanto eles não forem consumidos, o ar não será puro e os seres vivos permanecerão oprimidos.

Sem nossa intervenção, nosso tempo não dará origem ao termo adequado; devemos todos juntos trabalhar com esse fim. Todavia, se essa obra depende de nós, é bom que nos perguntemos o que fizeram e o que se propõem a fazer de nós; qual é, então, essa educação graças à qual tentam fazer de nós os criadores desse termo? Cultivam, em consciência, nossa predisposição à Criação ou nos tratam apenas como criaturas unicamente suscetíveis de adestramento. Esse problema é tão importante quanto qualquer problema social; em verdade, é o mais importante pois, em fim de contas, os problemas sociais repousam sobre essa base. Se temos valor realizaremos coisas de valor: se cada um de nós é perfeito em si, a sociedade e a vida social serão, elas também, perfeitas. O que importa, portanto, de início, é o que fizeram de nós na idade em que ainda somos maleáveis; o problema escolar é um problema vital. Isso salta aos olhos hoje; luta-se nesse terreno há muito tempo com um ardor e uma franqueza que ultrapassam de longe aquelas exibidas no campo da política, pois lá não se combate as obstruções do poder arbitrário.

Um venerável veterano, o Professor Theodor Heinsius, que, como falecido Professor Krug, conserva em sua velhice seu vigor e seu proselitismo, tentou recentemente atiçar o interesse dado à sua causa por um breve ensaio intitulado Concordância entre a escola e a vida, ou conciliação entre Humanismo e Realismo, encarada do ponto de vista nacional. Dois clãs disputam a vitória e cada um quer apresentar seu princípio de educação como o melhor e o mais bem adaptado às nossas necessidades: são os humanistas e os realistas. Preocupados em não merecer desprezo de nenhuma das duas facções, Heinsius, em seu opúsculo, fala com uma benevolência e um espírito de conciliação que provam seu desejo de dar a cada um o que lhe é devido, e faz, ao mesmo tempo, o maior mal à própria causa, que só um resoluto espírito de decisão pode servir.

Em verdade, esse pecado contra o próprio espírito da causa constitui a herança inalienável de todos os mediadores timoratos. As "Concordatas" não oferecem senão um covarde expediente:

Simples e francamente, como um homem: a favor ou contra!
Como palavra de ordem: escravo ou livre!
Mesmo os deuses desceram do Olimpo
Para combater nas muralhas de seus aliados.(3)


Antes de formular suas próprias proposições, Heinsius faz um breve resumo do curso que a história seguiu desde a Reforma. O período que vai da Reforma à Revolução é — o que afirmarei aqui sem prova, pois tenciono detalhar minha opinião em outra ocasião — aquele das relações entre adultos e crianças, senhores e servidores, poderosos e fracos, em resumo, o período da sujeição. Fora de qualquer outra base que possa justificar uma superioridade, a cultura enquanto força elevava seu detentor acima dos humildes que eram dela desprovidos, e o homem culto desempenhava em seu meio, fosse amplo ou restrito, o papel do forte, do poderoso, daquele que impunha, pois se tratava de uma autoridade. Nem todos podiam obter esse poder e essa autoridade, assim, a educação não era destinada a todos, e a ideia de um ensino para todos vinha contradizer esse princípio. A educação cria a superioridade e faz de vós um senhor; era, então, nesses tempos autoritários um meio de ascender ao poder. Mas a Revolução estilhaçou essa economia de senhor a servidor, e instalou-se esse princípio "Que cada um seja seu próprio senhor". A conclusão que necessariamente se impôs foi que a educação, que cria, com efeito, a autoridade, devia então se tornar universal, e foi aí que se experimentou a necessidade de aplicar um verdadeiro ensino para todos. Esse desejo de ensino universal acessível iria empurrar à luta contra o ensino tornado obstinadamente exclusivo, e nesse campo também a Revolução teve de empunhar a espada contra a dominação exercida quando da Reforma. O conceito de cultura para todos entrou em conflito com o de cultura reservada a uma minoria, e, depois de muitas peripécias e sob nomes diversos, a contestação e a luta chegaram até nós. Levando em conta as contradições apresentadas pelos campos inimigos que se confrontavam, Heinsius escolheu os nomes de Humanismo e Realismo e, malgrado sua inexatidão, nós os adotaremos pois eles são os mais comumente utilizados.

Até que a filosofia pôs-se a disseminar suas luzes sobre o século XVIII, o que se pode denominar ensino superior estava sem contestação nas mãos dos Humanistas, e fundamentava-se quase unicamente sobre a compreensão dos antigos clássicos. Existia, paralelamente, um outro ensino que também tinha por modelo a Antiguidade e cujo objetivo principal era o conhecimento aprofundado da Bíblia. Que ambos tenham escolhido como único objeto de estudo a flor da cultura do mundo antigo prova muito bem o quanto nossa própria existência parecia desprovida de importância, o quanto estávamos ainda longe de poder criar, por nossa própria originalidade, novas formas de beleza, e extrair, de nossa própria razão, a essência da verdade. Era-nos preciso, de início, estudar a forma e o conteúdo; éramos aprendizes. E assim como a Antiguidade, por intermédio dos clássicos e da Bíblia, reinava sobre nós como senhora, assim também — o que se pode provar historicamente — o motor de toda a nossa atividade consistia realmente nessa relação de senhor a servidor; é graças a essa característica da época que podemos compreender por que se aspirava tão abertamente ao "ensino superior" e por que se estava tão desejoso de distinguir-se do vulgar. A cultura fazia de seu detentor um senhor para os indivíduos incultos. O conceito de educação popular teria entrado em conflito com essa situação, pois se presumia que o povo deveria permanecer ignorante em relação a esses "senhores instruídos", limitar-se a admirar e a venerar estupidamente esse extraordinário esplendor.

Assim, o Romanismo — e seus dois pilares, o grego e o latim — permanecia sinônimo de erudição. Além disso, esse ensino só podia persistir numa educação formal, porque, estando a Antiguidade morta e enterrada, subsistiam apenas as formas tais quais, assim como as normas literárias e artísticas, e sobretudo porque não se podia simplesmente adquirir e conservar o poder sobre o povo senão por uma superioridade formal; basta um certo grau de agilidade intelectual para adquirir uma superioridade sobre os indivíduos menos flexíveis. O que se chamava ensino superior era, então, uma educação elegante, um sensus omnis elegantiae, a educação do gosto, o sentido das formas; ela quase se afundou num ensino gramatical, e impregnou a língua alemã de um perfume bem latino; assim, ainda hoje, se for preciso citar um exemplo, é em L'histoire des États brandebourgeois et prus-sien, ouvrage pour tous, recém-publicado, no qual podemos admirar as mais belas estruturas sintáxicas latinas.

Neste ínterim, o espírito de oposição contra o formalismo do século das Luzes surgiu pouco a pouco; reivindicou-se um ensino verdadeiramente humano, em concordância com o reconhecimento dos direitos universais do homem. A maneira como os Humanistas tinham agido, até então, mostrou vivamente a ausência de toda instrução sólida que levasse em conta a realidade, e exigiu-se um ensino terminal prático. Assim, todo Saber seria a vida, o Saber sendo vivido, pois o Saber só é real em sua perfeição. Se dar lugar à realidade nas escolas pudesse mostrar-se útil a todo o mundo, e conseguisse ao mesmo tempo convencer a todos da necessidade dessa preparação à vida, atraindo todos à escola, não mais se invejaria os senhores instruídos por seus conhecimentos raros e as pessoas do povo não seriam mais ignorantes. O realismo, que deve suplantar o humanismo, tem por tarefa abolir o sacerdócio dos eruditos e o noviciato do povo. Reduziu-se o domínio das formas clássicas da Antiguidade, e, simultaneamente, a autoridade soberana perdeu sua auréola. O tempo combateu o respeito tradicionalmente creditado aos eruditos, como ele combate em geral toda espécie de respeito.

Era preciso que a vantagem essencial dos eruditos, a cultura geral, pudesse beneficiar a todos. Podemos perguntar-nos, contudo, o que é a cultura geral senão, em termos vulgares, a capacidade de "poder falar de tudo", ou, mais seriamente, dominar qualquer assunto. Percebeu-se que a escola estava em atraso com relação à vida, não apenas porque ela mantinha-se afastada do povo, mas porque negligenciava a cultura geral dos estudantes em proveito de urna cultura especializada, e porque abstinha-se de desenvolver, em sala de aula, o estudo dos numerosos problemas que a vida nos impõe. À escola, diz-se, deve reconciliar-nos efetivamente com a vida, e preocupar-se bastante com ela para que os assuntos que um dia nos interessarão não nos sejam totalmente estranhos, nem impossíveis de compreender. Foi então com mais seriedade que tentaram familiarizar-nos com as situações e com os acontecimentos atuais, e elaboraram programas pedagógicos que deviam aplicar-se a todos, porque eles satisfariam a necessidade, comum a todos os indivíduos, de conhecer seu lugar no mundo e no século. Foi assim que os princípios fundamentais dos direitos do homem tornaram-se vivos e reais nas esferas educativas: a igualdade, pois essa educação concernia a todos, e a liberdade, pois cada um aprendia a conhecer , suas próprias necessidades, o que o tornava independente e autônomo.

Todavia, compreender o passado tal como o ensina o Humanismo, e compreender o presente, o que é o objetivo do Realismo, não conduz senão a dominar o temporal. Só o espírito consciente de si é eterno. Do mesmo modo, dava-se à igualdade e à liberdade apenas um lugar secundário. É verdade, era possível tornar-se o igual dos outros e libertar-se de sua autoridade; mas, nesse princípio, mal se podia encontrar vestígio da igualdade consigo, do equilíbrio e da reconciliação de nosso ser temporal e de nosso ser eterno, da sublimação de nossa natureza em espiritualidade, em resumo, da unidade e da onipotência de nosso Eu que se basta a si mesmo, visto que ele não permite a nada de estranho existir fora dele. De fato, tomava-se por liberdade a independência em relação às autoridades, mas essa liberdade excluía a autodeterminação e não conduzia a nenhum desses atos em que o homem livre em si se reconhece, em que se manifesta um espírito resolutamente voltado para a ação, quer dizer, liberto das flutuações da reflexão. É verdade, o homem dotado de uma cultura formal não tinha mais de dominar a cultura geral, elevar-se acima desse oceano cintilante, e sua "cultura superior" tornava-se uma "cultura especializada" (o que não lhe retira naturalmente seu valor incontestável, pois toda cultura geral é destinada a brilhar nos ramos particulares, os mais diversos, da cultura especializada); só um indivíduo culto no sentido do realismo não ultrapassava a igualdade ou a liberdade em relação ao próximo e seu valor não ultrapassava o que se pode denominar de homem prático. Sem dúvida, a elegância oca do Humanista, do dândi, não podia escapar do fracasso, mas se distinguia a ferrugem da materialidade sobre o vencedor que era apenas um industrial desprovido de gosto. Dandismo e industrialismo disputam os favores de nossos caros rapazes e moças, e amiúde mudam suas vestes de modo sedutor: o dândi exibe um rude cinismo, enquanto o industrial veste roupa branca. Com toda a certeza, a madeira verde das matracas de nossos industriais quebrará a madeira das varetas de nossos dândis efeminados, mas, madeira verde ou madeira seca, a madeira permanece madeira, e, quando arde a chama do espírito, a madeira deve pegar fogo.

De qualquer modo, se ele assimila os aspectos positivos do Humanismo (nós não lhe contestamos a capacidade), por que o Realismo deve, apesar de tudo, perecer também? Ele pode certamente assimilar o que o Humanismo tem de inalienável e autêntico, a cultura formal, assimilação tanto mais fácil pelo método científico tornado possível e pelo tratamento racional de todas as matérias de ensino (a título de exemplo, chamo a atenção para a contribuição trazida por Becker à gramática alemã); esse aperfeiçoamento permite-lhe desalojar seu adversário de seu pedestal. Realismo e Humanismo têm uma mesma idéia-mãe, a saber-, que a educação tem por objetivo proporcionar ao homem a habilidade e ambos concordam em pensar que é preciso, por exemplo, conhecer a fundo todos os torneios idiomáticos e todas as finezas das demonstrações em matemática, e que é preciso, portanto, adquirir o domínio no manejo de uma matéria e dominá-la. Assim, também o próprio Realismo acabará inevitavelmente por tomar como objetivo último a formação do gosto e dará prioridade à atividade formal, como já é o caso, ao menos, em parte. Com efeito, no campo do ensino, todo assunto ensinado só tem valor na medida em que as crianças aprendem a dele tirar partido, a utilizá-lo. Sem dúvida, só se deve inculcar, como o desejam os realistas, o útil e o utilizável, mas não se deverá buscar a utilidade senão na mise en forme, na generalização, na exposição, e não se pode desprezar essa exigência humanista.
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