26 de dez de 2013

A miséria de nossa educação


(Os locais de ensino) Não se contentam, ao contrário, com formar pessoas de bom senso; não visam, para dizer a verdade, a formar pessoas ouvindo a voz da razão. Compreender as coisas e os dados materiais, é preciso deter-se aí; ouvir a voz da razão não parece dizer respeito a todos. Assim também, querem nos dar o sentido do positivo, sob seu aspecto formal ou ao mesmo tempo sob seu aspecto material, o que nos acomoda no positivo. Em pedagogia, como em outros campos, a liberdade não pode expressar-se, nossa faculdade de oposição não pode exprimir-se; exigem apenas a submissão. O único objetivo é adestrar à forma e à matéria: do estábulo dos humanistas não saem senão letrados, do estábulo dos realistas, só cidadãos utilizáveis e, em ambos os casos, nada além de indivíduos submissos. Sufocam pela força nossa saudável tendência à indisciplina e impedem ao mesmo tempo o Saber de desenvolver-se em Vontade livre. A vida escolar só engendra filisteus. Adquirimos o hábito em nossa infância, de resignarmo-nos a tudo o que nos era imposto: mesmo modo, mais tarde, resignamo-nos e adaptamo-nos à vida positiva, adaptamo-nos à nossa época, tornamo-nos seus servidores, o que se convencionou chamar de bons cidadãos. No entanto, onde encorajam o espírito de oposição em vez do espírito de submissão nutrido até o presente momento? Onde se formam indivíduos que criam e não indivíduos que aprendem? Onde o mestre se transforma em companheiro de trabalho e reconhece que o Saber deve tornar-se Vontade? Onde está a instituição que se propõe por objetivo liberar o homem e não se limitar a cultivá-lo. Pois bem, ainda são poucos esses lugares, infelizmente! Mas se perceberá cada vez mais que a mais elevada missão do homem não é cultivar-se, civilizar-se, mas tender a seu próprio desenvolvimento. A cultura será, por isso, negligenciada? Não, assim como também não estamos dispostos a perder nossa liberdade de pensamento fazendo-a integrar-se e sublimar-se na liberdade de vontade. Tão logo o homem põe seu ponto de honra em sentir-se, conhecer-se, realizar-se — assim, então, no sentimento e na consciência de si e na liberdade — ele se esforça para pôr fim à sua ignorância, pois esta faz do objeto estranho e para ele incompreensível uma barreira, um obstáculo ao conhecimento de si. Se a idéia de liberdade desperta no homem, uma vez livre, ele não cessa de continuar a libertar-se; mas se ele é apenas culto, ele se adaptará às circunstâncias como pessoa altamente culta e refinada e não será mais do que um servidor de alma submissa. O que são, então, em sua maioria, nossas personagens ricas de espírito e de cultura? Mercadores de escravos com sorriso altivo, eles próprios escravos.

Os realistas podem fazer-se glória de uma superioridade: eles não formam pessoas apenas cultas, mas cidadãos dotados de entendimento e utilizáveis. De fato, seu princípio de base: "tudo o que se ensina deve reportar-se à vida prática", poderia até mesmo servir de divisa ao nosso tempo, se ao menos eles não entendessem por vida prática a acepção trivial do termo. A verdadeira prática não consiste a fazer seu caminho na vida, e o Saber vale mais do que o uso que dele se poderia fazer para alcançar por ele objetivos práticos. A prática mais elevada é aquela que permite a um homem livre revelar-se a si mesmo e o Saber que sabe morrer é a liberdade que dá a vida. A vida prática! 

...Essa preocupação de preparar à vida prática só forma homens de princípios que agem e pensam segundo máximas, mas não homens tendo seus princípios, ela forma espíritos respeitosos das leis e não espíritos livres. Os indivíduos cujos pensamentos e atos são animados de um movimento e de um rejuvenescimento perpétuos, são bem diferentes daqueles que permanecem fiéis a suas convicções. As próprias convicções permanecem impassíveis, a pulsação do coração que faz circular em nossas veias um sangue sempre renovado não as anima; elas cristalizam-se, tais como corpos solidificados, e mesmo que sejam adquiridas e não impostas à memória, elas são algo de positivo e, além do mais são tidas como sagradas. Assim, a educação realista pode muito bem formar caracteres fortes, sólidos e bem aguerridos, homens determinados, corações fiéis, e isso é um ganho inestimável para a nossa geração de lacaios. Mas os caracteres eternos, cuja firmeza é apenas o fluxo incansável de sua autocriação sempre renovada, que só são eternos porque eles se criam a si próprios a cada instante e porque o caráter temporal de cada uma de suas manifestações é fundado sobre o frescor e a atividade criativa, sempre jovens e nunca alteradas, de seu espírito eterno: tais caracteres não são o fruto dessa educação aí. Na melhor das hipóteses, dizer de um caráter que ele é saudável, é dizer apenas que ele é rígido. Se ele quiser buscar seu acabamento, será preciso que sofra, estremeça e palpite na paixão feliz de um rejuvenescimento e de um renascimento sem trégua.

Assim todas as educações convergem a uma fonte única: a personalidade. O Saber, quaisquer que sejam a sua erudição e sua profundidade, sua extensão e sua compreensibilidade, permanece um bem, uma posse enquanto não tiver desaparecido na fonte invisível de nosso Eu para tornar a brotar com uma força irresistível sob forma de Vontade de espírito escapando dos sentidos e do conhecimento. O Saber realiza essa transformação cessando de apegar-se unicamente aos objetos, tornando-se Saber de si mesmo, ou, se isso parece mais claro, Saber da idéia, autoconsciência do espírito. Então, por uma espécie de inversão, ele se torna impulso, instinto do espírito, saber sem consciência do qual cada um pode ao menos ter uma idéia comparando-o a esse sentimento simples nascido da sublimação das numerosas experiências do nosso Eu, e que se denomina apreciação intuitiva: todo o Saber ampliado que emana dessas experiências concentra-se num Saber instantâneo que permite ao homem decidir sobre seus atos num instante. Mas o Saber, para abrir um caminho até essa imaterialidade, deve sacrificar sua parte mortal e tornar-se imortal, tornar-se Vontade.

A miséria de nossa educação até os nossos dias reside em grande parte no fato de que o Saber não se sublimou para tornar-se Vontade, realização de si, prática pura. Os realistas sentiram essa necessidade e preencheram-na, mediocremente por sinal, formando "homens práticos" sem idéias e sem liberdade. A maioria dos futuros mestres é o exemplo vivo dessa triste orientação. Cortaram-lhes magnificamente as asas: agora é sua vez de cortar as dos outros! Foram adestrados, é sua vez de adestrar! Todavia, a educação deve ser pessoal, mestre do Saber e guardar constantemente no espírito esse caráter essencial do Saber: não ser em nenhum caso objeto de posse, mas ser o próprio Eu. Numa palavra, não se deve inculcar o Saber mas conduzir o indivíduo a seu pleno desenvolvimento; a pedagogia não pode mais  partir da idéia de civilizar mas da idéia de desenvolver pessoas livres, caracteres soberanos. É preciso, então, cessar de enfraquecer a Vontade, até o presente sempre tão brutalmente oprimida. E porquanto não se enfraquece o desejo de saber, por que enfraquecer o desejo de querer? Visto que um é nutrido, que o outro também o seja. A teimosia e a indisciplina da criança têm tantos direitos quanto seu desejo de saber. Estimulam deliberadamente este último; que também suscitem essa força natural da Vontade: a oposição. Se a criança não aprende a tomar consciência de si, é claro que ela não aprende o mais importante. Que não seja sufocado nem seu orgulho, nem sua franqueza natural. Minha própria liberdade permanece sempre ao abrigo de sua arrogância. Pois se o orgulho degenera em arrogância, a criança desejará usar de violência contra mim. Ora, eu que sou um ser livre tanto quanto a criança, não necessito suportar isso. Todavia, para defender-me, devo abrigar-me por trás da cômoda muralha da autoridade? Não, oponho-lhe a dureza de minha própria liberdade, e a arrogância dos pequenos se quebrará por si mesma. Aquele que é um homem completo não precisa ser uma autoridade. E se a franqueza natural da criança degenera em insolência, esta cederá à terna ascendência de uma verdadeira mulher, a seus cuidados maternais ou à firmeza de um homem. Muito fraco é aquele que precisa recorrer à autoridade e bem culpado aquele que crê corrigir o insolente fazendo-se temer! Exigir o temor e o respeito são princípios para a época ultrapassada do estilo rococó.

De que nós nos queixamos, enfim, ao exame dos defeitos da educação que a escola dispensa atualmente? Do fato de nossas escolas ainda repousarem sobre o velho princípio do Saber sem Vontade. O novo princípio é o do Querer, sublimação do Saber. Portanto, nada de "concordância entre a escola e a vida": queremos que a escola seja a vida, e que aí como alhures, o dever do indivíduo seja revelar-se a si mesmo. Á cultura geral dispensada pela escola deve ser uma educação para a liberdade e não para a submissão: a verdadeira vida, é sermos livres.

Uma olhada sobre a falta de vida do humanismo teria forçado os realistas a reconhecer isso. Mas se vissem a total incapacidade da educação humanista para a pretensa vida prática (do cidadão, não do indivíduo), retornariam, por oposição, a uma educação puramente formal, a uma educação material, pensando que, comunicando uma matéria utilizável nas relações sociais, não apenas ultrapassariam o formalismo, como também contentariam a mais elevada exigência. Todavia, a educação prática permanece longe da educação livre e pessoal: aquela ensina a arte de fazer habilmente seu caminho na vida, esta dá o poder de fazer brotar das profundezas do Eu a fagulha de vida; aquela prepara para estar consigo num dado mundo, esta a estar consigo em si mesmo. Não podemos exprimir toda a nossa personalidade quando nos comportamos como membros úteis da sociedade, mas podemos fazê-lo perfeitamente quando somos homens livres, autocriadores (que nós mesmos criamos).

Se a liberdade da vontade responde à idéia e ao desejo dos novos tempos, é preciso que a pedagogia tenha diante dos olhos, como ponto de partida e de chegada, a formação da livre personalidade! Humanistas e realistas ainda se limitam ao Saber: preocupam-se quando muito com a liberdade de pensar e fazem de nós pensadores livres, por uma liberação completamente teórica. No entanto, o Saber só torna livre interiormente (liberdade à qual nunca mais se deverá renunciar, por sinal), mas exteriormente, malgrado todas as liberdades de consciência e de opinião, podemos permanecer escravos, permanecer na sujeição. E, contudo, a liberdade exterior está precisamente para o Saber assim como está para a Vontade a verdadeira liberdade interior, a liberdade moral. Assim, é só na educação universal, e porque nela o mais humilde encontra no mesmo plano o mais bem posicionado, que encontramos a verdadeira igualdade de todos, a igualdade das pessoas livres: só a liberdade é igualdade.

... Se eu quiser, em conclusão, formular brevemente o objetivo para o qual deve dirigir-se nossa época, é nesses termos que resumirei a necessidade de declínio do Saber sem Vontade e a ascensão da Vontade consciente de si mesma cujo destino realiza-se ao sol resplandescente da livre personalidade: o Saber deve morrer para ressuscitar a Vontade e recriar-se a cada dia como livre personalidade.

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