13 de dez de 2014

A TRISTEZA PERMITIDA

Posted by Semeando Paz on 13.12.14 1 comment




A TRISTEZA PERMITIDA Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como? Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra. Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra. A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido. Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas. “Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia. Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos. 
Autoria: Martha Medeiroscomo http://arcadoconhecimento.blogspot.com.br Your Online Store Builder : http://bit.ly/123sell


Reações:

Um comentário:

  1. Haverá o dia em que o “mal” que o outro fizer não lhe tocará. Aceitar a maldade é uma opção. Independentemente do que venha de lá, é você quem processa os acontecimentos, transformando-os em combustível para mágoas ou oportunidades de ser amor. Essa opção nunca será do outro, mas de você mesmo.
    Chegará o tempo de olhar para o que hoje lhe incomoda e perceber com clareza que aquilo é apenas uma expressão de alguém que ainda não sabe, que não enxergou o tamanho do seu vazio, que se esconde, se projeta, se autentica aparentando ser o que não é e, talvez por isso, gera dor em quem está perto. Acolher essa dor e torná-la pessoal é uma escolha que deixa de ser quando você finalmente entender que, por mais que pareça, a questão não é pessoal, mas uma infeliz tentativa de alguém que ainda não aprendeu ser de outro jeito.
    Se acolhemos os maus tratos, a antipatia, a injustiça que porventura nos atinja, adicionarmos irritação, vingança, auto vitimização, o que nascerá? É possível que disso saia algo bom?
    Na Terra todos sofreremos de alguma maneira. Seremos expostos a atritos, enfrentaremos atitudes completamente desnecessárias de gente que aparentemente age sem motivos, nos destrata, nos desgasta, nos humilha, tenta nos apequenar, seja com palavras, seja com atitudes, portanto a questão é: Quando isso acontece, o que você devolve? Que tipo de energia irá gerar para alimentar ou modificar os processos?
    Haverá o dia em que entenderá. Verá o que o outro pratica como expressão de sua própria sombra, oportunidade para ser, para transformar a partir de você um ambiente, um comportamento, uma atitude hostil.
    Nem sempre a pessoa entenderá.
    Pode ser que aquele ainda não seja o momento, mas, acredite, no dia que entender que você nunca é vítima, mas parte do processo, que pode escolher o que fazer com o que lhe toca, se assimilará ou transformará, quando perceber que nossas histórias estão se cruzando, se conflitando, se interconectando sempre, que nossos desgastes não existirão se você não quiser, quando estiver acima dessa zona de conflito enxergando como quem de fato entendeu como as coisas funcionam, então, não haverá necessidade de perdão. Nesse dia tudo estará claro, em equilíbrio, na dimensão da consciência e do amor.
    Se ainda não é, sigamos no caminho em alegria por todas as oportunidades que estão acontecendo agora, com o único intuito de que venha a ser.

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