3 de jul de 2014

Chefe da máfia dos ingressos tinha livre trânsito na Fifa e vendia ingressos até da comissão técnica


Fofana tem fotos com vários jogadores, entre eles Ronaldo, do Comitê Local
Imagem: Divulgação
Assistir a jogos da Copa do Mundo em camarotes, frequentar eventos exclusivos, transitar em carros credenciados pela Fifa e ainda faturar até R$ 200 milhões. Esse era o plano elaborado pelo argelino Mohamadou Lamine Fofana, de 57 anos, para o Mundial de 2014. O projeto, inclusive, já estava em curso. Foi interrompido na terça-feira por uma ação da Polícia Civil.


Fofana foi preso em um apartamento de um condomínio de luxo na Barra da Tijuca durante uma operação de combate à venda ilegal de ingressos da Copa. Empresário com vários serviços prestados ao mundo do futebol, ele agora é suspeito de liderar uma quadrilha internacional de cambistas que lucrava até R$ 1 milhão por partida do Mundial do Brasil.


Até ir parar atrás das grades, entretanto, o argelino desfrutava do prestígio conquistado em anos de trabalho no meio do futebol. Isso pelo menos é o que apontam investigações feitas pela 18ª DP (Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro) e pela 9ª PIP (Promotoria de Investigação Penal), responsáveis pela operação que deteve Fofana e outros dez suspeitos.

"Ele tinha acesso livre ao Copacabana Palace, hotel em que estão os dirigentes da Fifa. No seu carro, há um adesivo que dá acesso a qualquer evento privado da entidade", contou o delegado Fábio Barucke, chefe da 18ª DP.

Fofana, aliás, também promovia seus próprios eventos durante a Copa. Escutas telefônicas feitas durante a investigação e divulgadas pelo jornal O Dia indicam que ele organizou festas na capital fluminense em dias de jogos do Mundial. Gastou cerca de R$ 9 mil em garrafas de uísque só para agradar seus convidados, que não eram qualquer um.

O irmão e empresário de Ronaldinho Gaúcho, Assis Moreira, foi um dos que recebeu um convite para uma festa de Fofana realizada numa cobertura na Lagoa, bairro nobre do Rio. Assis também foi pego em ligações negociando ingressos da Copa com Fofana e, segundo o promotor Marcos Kac, será intimado a depor sobre o assunto. 

Amistoso e transferência

Fofana é ex-jogador de futebol e dono de uma agência de negócios relacionados ao esporte, a Atlanta Sportif International. A empresa existe desde 1993 tem escritórios em Atlanta, nos Estados Unidos, e em Dubai. Por meio dela, o argelino já intermediou transferências de jogadores e também organizou amistosos de futebol.

Foi Fofana quem promoveu o jogo com ex-jogadores brasileiros campeões da Copa do Mundo de 1994 realizado na Chechênia, na Rússia, em 2011. O amistoso reuniu craques como Romário, Bebeto, Cafu, Dunga e Raí, que depois da partida disse ter se arrependido de participar do evento por sua motivação política.

No site de sua agência, Fofana exibe fotos com Romário e outros jogadores. Em seu currículo, o empresário informa que intermediou a visita do agora deputado federal aos Emirados Árabes. Procurado, Romário negou manter relações com Fofana.

Preso, Fofana informou que só deve se pronunciar em juízo. Questionada sobre o argelino, a Fifa não respondeu. Em nota, a entidade declarou que está disposta a colaborar com as investigações sobre o esquema de venda de ingressos.

Operação Jules Rimet

A operação que descobriu o esquema foi batizada de Jules Rimet, em alusão ao nome do primeiro presidente da Fifa. Ela é resultado de pelo menos um mês de investigações da polícia e Ministério Público.

Mais de cem ingressos foram apreendidos na ação, além de dinheiro e máquinas para pagamento em cartão de crédito. Os bilhetes pegos pela polícia eram reservados pela Fifa a seus patrocinadores, a clientes de pacotes de hospitalidades (camarotes) e até a membros de comissões técnicas de seleções. Dez ingressos, inclusive, eram reservados as integrantes da comissão técnica da seleção brasileira.

Segundo Polícia Civil, a quadrilha vendia ingressos por até R$ 35 mil. Com isso, lucrava até R$ 1 milhão por jogo. Na Copa, o grupo poderia faturar R$ 200 milhões.

Suspeitos presos informaram à polícia que o esquema não é novo. Ele funcionava há quatro Copas. O trabalho seria tão lucrativo que integrantes da quadrilha trabalhariam durante o torneio e depois descansariam por quatro anos até o próximo Mundial.

Todos os presos vão responder pelos crimes de lavagem de dinheiro, associação criminosa e cambismo. Podem ser condenados a até 18 anos de prisão.

Vinicius Konchinski
UOL
Editado por Folha Política
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