26 de mai de 2014

Notas soltas sobre a imbecilidade inteligente

Diz Ricardo:
PS: você não é imbecil. Eu não sou. Maria não é. Não se trata de natureza humana, apenas de uma quantidade impressionante de bem treinados, dos escravos aos poderosos.

Segundo Darwin, o mais forte sobrevive. Por milênios as nossas sociedades beneficiam os imbecis. Mas não podemos perder a esperança de que algum dia uma meritocracia vingará e, finalmente, seremos recompensados.
Caro Ricardo, o assunto "imbecilidade" é muito complexo. Mas o ponto mais importante acho ser o seguinte: a imbecilidade não distingue entre donos e escravos, mas reúne a nossa raça numa única, grande categoria à qual todos pertencemos.

O mais curioso é que nós estamos bem conscientes deste grande limite intrínseco e temos forjado um termo para defini-lo: "inteligência".

A inteligência é, supostamente, o "ponto alto" da nossa raça, o que nos distingue dos restantes animais (pois é bem lembrar que afinal isso somos: animais). A inteligência é, portanto, a característica primária e melhor dos seres humanos e, para comprova-lo, costumamos trazer como exemplos os seus frutos: todos ficamos rendidos perante uma obra-prima artística ou científica. Observamos tais exemplos e ficamos pasmados com os cumes que a nossa inteligência pode atingir.

Todavia, ao longo deste processo, ignoramos os outros filhos legítimos da inteligência, como as guerras por exemplo, tornadas cada vez mais destruidoras sempre graças à nossa capacidade intelectual. De facto, as guerras existem também entre outras raças animais, mas nunca atingem o potencial destruidor das nossas.
Esta "guerra total", entendida como evento que pode pôr fim à existência da nossa como das outras espécies animais do planeta, é portanto filha legítima da inteligência e irmã das maravilhas artísticas ou científicas típicas da nossa raça.

Raramente reconhecemos isso: tendemos a tratar os nossos grandes erros (e a guerra "total" é um deles) como "desvios" num caminho que julgamos ser virtuoso por definição. Pouco importa se o Homem hoje é a única espécie capaz de rebentar o planeta: o que conta é que abandonámos as cavernas, passamos para as cabanas para chegar às cómodas casa em tijolos, com tanto de televisão.
É o mito do "crescimento infinito" traslado para a raça: enquanto todos os ambientalistas estão prontos para atirar-se com a faca entre os dentes contra um crescimento infinito económico, poucos entre eles põem em causa um outro crescimento infinito, que desta vez definimos como "evolução". A nossa evolução.
Esta atitude tem uma grave consequência: impede uma análise histórica de amplo respiro que estude de forma fria e racional o passado da nossa espécie. O caminho do Homem, portanto, é visto como uma ininterrupta evolução, onde este último termo subentende um crescimento sempre positivo. Mas a nossa História não é de todo um caminho linear: é, pelo contrário, um percurso feito de avanços, recuos e desvios.

Uma segunda consequência, bem mais grave do que a primeira, é que hoje consideramos como "conquistas" factos que, na verdade, bem podem representar um retrocesso. Isso acontece por várias razões, mas a mais importante julgo ser o facto de ter perdido a capacidade de observar o que a Natureza ensina: substituímos a observação das leis naturais com o poder da inteligência, partindo do princípio que esta tenha a capacidade de prever as reacções adversas futuras e encontrar caminhos alternativos (sempre "virtuosos").
Um dos melhores exemplos neste sentido acho ser aquele da roda. 

A roda?
A roda não existe na Natureza. Alguma vez viram um crocodilo com quatro rodas motrizes? Acreditem, não há: mesmo vivendo no meio da lama, tendo também que atravessar riachos e zonas pantanosas, a Natureza forneceu ao crocodilo quatro patinhas que, diga-se, desenvolvem egregiamente o papel delas.

Ainda hoje nas escolas é ensinado que os povos da América do Sul eram sim muitos evoluídos, mas incrivelmente não conheciam a roda. Como se a roda fosse um elemento característico das sociedades evoluídas. A equação roda = evolução está tão enraizada no nosso subconsciente que nem por um segundo paramos para pensar numa pergunta que afinal seria a mais lógica e natural entre todas: porque a Natureza não criou a roda?
Nós temos algumas centenas de milhares de anos de experiência, a Natureza tem (neste planeta) mais de 4 biliões de anos de experiência: se ao longo deste tempo todo a Natureza evitou cuidadosamente a roda, afinal uma forma geométrica extremamente simples, se calhar é porque existe uma razão. Mas a nossa inteligência não admite esta pergunta, nem tenta justificar esta falha e glorifica a roda como um dos máximos exemplos da nossa suposta superioridade aplicada.

O que é duplamente espantoso: porque as civilizações da América do Sul estavam aí, a demonstrar que era possível viver ao longo de milhares de anos, em comunidades altamente organizadas, cientificamente evoluídas, sem necessidade alguma da roda.

Agora, pare o Leitor e pense: o que significou para o Homem a utilização da roda?

A roda foi uma invenção fundamental não só para os transportes (a aplicação mais óbvia) mas para o progresso tecnológico em geral: pensamos nas rodas das veículos mas também (e sobretudo) nas rodas das engrenagens. Sem rodas não haveria carros, comboios, aviões: mas nem poderia existir a maior parte das máquinas. De facto, parece ter sido um avanço histórico. 
Todavia a roda tem uma grave implicação: para funcionar precisa de energia. Uma roda sem uma qualquer fonte de energia externa é inútil: não rola sozinha. A roda funciona só se o Homem for capaz de aplicar à roda uma força: pode ser a força dos braços mas, na nossa sociedade, recorre-se a outra fontes energéticas. Em primeiro lugar: combustíveis fósseis.
Mas mais do que isso, acho importante sublinhar como sem roda o planeta estaria povoado por muitas menos pessoas: seria inimaginável um crescimento demográfico como aquele vivido nos últimos séculos sem a utilização da roda. Sem rodas, ninguém hoje estaria aqui a falar de poluição (mais uma vez: não nos volumes actuais), de aquecimento global, de guerras para o petróleo, de bombas atómicas.

É verdade: sem rodas o nosso conhecimento científico não teria evoluído tanto quanto fez, o que é mal. Isso deve ser mantido em conta. Todavia, para avaliar um fruto da nossa inteligência, devem ser pesados cuidadosamente os prós e os contras, todos, sem excepção. A roda, esta maravilha saída do nosso cérebro, valeu a pena?

A minha resposta é: não sei, tenho dúvidas. E reparem: quem escreve não é de todo um dos extremistas que rogam o regresso "para a terra", todos a trabalhar nos campos para sofrer a vida "no duro". Longe, bem longe disso.
Mas a dúvida fica.

Sem roda haveria guerras para o petróleo? Sem roda haveria a bomba atómica? Sem roda haveria o esgotamento dos recursos naturais? Sem roda haveria o mesmo alarmante nível de poluição global?
E quem diz a roda, fala também de todo o conjunto de descobertas, fruto da nossa inteligência, que levaram a nossa espécie ao que ela é hoje: um Homem que tenta perceber os segredos mais íntimos do Universo, capaz até de manipular as bases da vida; mas também uma espécie que consome os recursos à disposição com um ritmo alucinante, que destrói o ambiente no qual prosperou, a única espécie capaz de extinguir-se num único acto de força.

(dito entre nós: eu gosto da roda! Só acho ser este um bom exemplo de invenções apresentadas como "só positivas" que, na verdade, têm também implicações altamente negativas)

O rato e nós
O perigo é que a inteligência seja o beco sem saída da evolução. Uma faca de dois gumes, que se dum lado permite o melhoramento das condições de vida, do outro inebria e oculta os custos desta melhoria. Esta é a nossa "imbecilidade": não algo limitado a uma só classe de pessoas, mas algo que engloba toda a nossa espécie.

Uma imbecilidade que nos obriga a repetir os erros do passado, vezes sem conta, como se o Homem fosse uma criança incapaz de aprender com os seus próprios erros. Uma imbecilidade que afasta a nossa espécie das Leis da Natureza (as únicas universalmente válidas) em troca duma pseudo-racionalidade com potencial auto-destruidor.

Uma imbecilidade que faz questão até de ridicularizar alguns aspectos intrínsecos do nosso ser, como a vertente espiritual, que existe, tal como sempre existiu, e que pede o espaço dela. Nesta óptica, é triste observar como desde sempre a religião (qualquer uma delas, não importa qual) seja antes institucionalizada e depois submetida ao poder (normalmente as duas coisas acontecem na mesma altura).

Há quem veja nisso uma obscura conspiração secular (a Igreja Católica ao serviço da Maçonaria ou dos Illuminati ou de outro grupo ainda, o Leitor é que escolhe), pois a nossa suposta inteligência é óptima na criação de fantasmas mas depois impede uma simples verificação para constatar que este é um padrão antigo, válido a qualquer latitude e em qualquer tempo.

Esta constante repetição dos erros, esta incapacidade em poder prever percursos que já foram batidos inúmeras vezes, deveria fazer reflectir acerca do sentido último do termo "inteligência". A nossa inteligência prevê apenas memórias de curto prazo, o que é espantoso, pois nisso não há nenhuma diferença entre o Homem e as outras espécies: tal como o rato continua a cair na armadilha, da mesma forma o Homem não aprende com as falhas das gerações anteriores. A única diferença é que o Homem tem o registo escrito dos erros antigos, o que até parece justificar a inexperiência do rato, não a nossa.

Um clássico: a guerra
O exemplo clássico neste sentido é a guerra.
Espécie invejosa, gananciosa e conflituosa, desde logo o Homem começou a travar guerras para os recursos. O que é natural, pois acontece com todas as espécies animais. Mas é "natural" até um certo ponto: não deveria a inteligência ter ensinado a resolver estas questões de outras formas?
É difícil aqui justificar as infinitas guerras recorrendo aos Illuminati, a não ser que o projecto da Nova Ordem Mundial já estivesse presente na época em que o Homem vivia nas cavernas (a Nova Caverna Mundial?).

A simples verdade é que o Homem, mesmo tendo à disposição uma linguagem sofisticada e a capacidade de criar e partilhar pensamentos abstractos, ainda não foi capaz de banir algo que gostamos de pensar ser uma exclusiva das espécies inferiores: a força bruta.
Continuamos alegremente a matar e até a inventar armas cada vez mais mortíferas para aumentar o número de baixas nas fileiras dos adversários.

No ano 2014, na mesma altura em que o Leitor está a ler estas linhas, há 61 Países envolvidos em conflitos, com a participação de 537 milícias. A maior democracia no Mundo (supostamente os Estados Unidos) tem também o segundo maior exército do planeta. E um dos Brics (supostamente, a esperança para o futuro), a China, tem o maior número de soldados.

Os Países ocidentais (supostamente, o ponto mais alto da evolução: Estados Unidos, Grã Bretanha, França, etc.) têm não menos do que 8.000 ogivas nucleares, suficientes para rebentar com o planeta todo várias vezes. Ao considerar outros Países também (Rússia, Índia, China, israel, Paquistão, etc.), o total aumenta até um número não inferior às 17.000 ogivas. E reparem: todas foram construídas nos últimos 70 anos, após centenas de milhares de anos de "evolução".
Para ficar com o passado recente, nem podemos esquecer que as duas maiores guerras da humanidade (a Primeira e a Segunda Guerra Mundial) foram combatidas nos últimos 100 anos, com um número de mortos que atinge tranquilamente as 100 milhões de unidades.
Nada mal como evolução, não é?
Mesmo assim, o Homem continua a investir em armas de destruição: os Estados Unidos investem anualmente 663.255.000.000 de Dólares nas armas; a União Europeia 321.031.600.000 de Dólares; a China 98.800.000.000, a Rússia 61.000.000.000, o Brasil 27.124.000.000. A Suíça, que não combate uma guerra há mais de 300 anos, gasta 4.141.000.000 de Dólares.

O planeta todo gasta 2,4% do PIB (a riqueza anualmente produzida) só para as armas: 1.747 biliões de Dólares gastos apenas para matar e destruir. Na prática, os únicos Países onde não há meio para a guerra são aqueles onde nem há o espaço para um quartel: Andorra, Grenada, o Lichtestein...
O que poderia ser feito com este dinheiro todo? Quantos problemas poderiam ser resolvidos?
Qual nisso o papel da inteligência? E não venham com discursos do tipo "Mas Max, deverias saber que a guerra é instrumento da elite etc. etc., os Illuminati etc.etc., a Maçonaria etc.etc., os Reptilianos etc. etc.", pois as guerras sempre existiram: sempre, sem excepção. O que se passa é que a "evolução" tornou os conflitos mais truculentos, só isso.

Se a guerra é um instrumento da elite, quem é enviado a matar e morrer por conta dos outros deveria ter o dever de pôr um ponto final nisso: mas nunca aconteceu. A inteligência da nossa espécie não deveria ter resolvido este problema há muito? Porque ainda assim não foi?

Poderia ser realçado como aquelas partes do mundo mais "evoluídas" não conhecem uma guerra há bastante tempo. Na Europa, por exemplo, não há uma guerra desde o fim da Segunda Guerra Mundial; e nos Estados Unidos o último conflito foi a Guerra de Secessão. Não é isso um sinal de evolução, isso é, de inteligência aplicada?
A resposta, como deve ter intuído o Leitor, é simples: não. Porque a última guerra na Europa acontece agora e chama-se Ucrânia (e o Kossovo foi há 15 anos); porque os Estados Unidos são o País que em mais guerras participou nos últimos 100 anos, perdendo dezenas de milhares de cidadãos.

Lamento, mas contra factos não há palavras: a guerra sempre falou e ainda fala mais forte do que a "inteligência". Mas atenção: a inteligência, mesmo sendo incapaz de prevenir e evitar as guerras, sempre trabalhou para aperfeiçoar o potencial destruidor das armas.

Temos a certeza de que a inteligência seja exclusivamente um factor positivo?

O ambiente?

Portanto: inteligentes sim, mas com o vício da guerra.
Paciência, ninguém é perfeito, não é? E "inteligência" não é sinónimo de "perfeição".
Verdade.
Mas há outros aspectos que obrigam a reflectir.

O ambiente, por exemplo.
Já repararam? O ser humano é a única espécie que destrói o ambiente no qual vive. Não acham isso um pouco esquisito? Imaginem um rato que decida deitar fogo a uma fábrica de queijo: não seria esquisito? Seria. Mas é isso que o Homem faz.
A nossa "fábrica de queijo" é o meio-ambiente. Não vamos aqui falar do Aquecimento Global, com todas as dúvidas conexas: não interessa agora estabelecer se o (alegado) aumento das temperaturas for antropocêntrico ou não. Porque, temperaturas ou não, há a poluição: que existe e que não pode ser negada. Como também há a desflorestação, outro crime contra o ambiente.

Como justificar este contínuo e intencional estrago de recursos naturais tendo como base a inteligência? Uma possível desculpa é constituída pelo facto de que a Revolução Industrial é tudo somado algo recente: o Homem atirou-se para a miragem do crescimento e reparou nas inevitáveis consequências apenas nos últimos tempos.

Mas aqui também não é possível não realçar a falta na previsão das consequências: a inteligência não previu que a queima de combustíveis fósseis (um exemplo entre os muitos possíveis) poderia ter trazido efeitos negativos? Ou a previsão foi posta de lado em favor de razões económicas? Em ambos os casos, estamos perante mais uma falha: o Homem ou não foi capaz de prever ou foi capaz e escolheu ignorar.

Pior: o álibi da Revolução Industrial como evento repentino que introduziu temáticas ambientais antes desconhecidas, não aguenta uma simples análise histórica (mais uma vez...). Porque, apesar daquilo que normalmente é pensado e difundido, a poluição provocada pelas acções humanas não é de todo um fenómeno "novo".

Os cidadãos de Londres que no final do 1700 observavam espantados os efeitos negativos do carvão, poderiam simplesmente ter espreitado os arquivos históricos e descoberto que já em em 1272 o rei Eduardo I tinha proibido a queima do carvão betuminoso após o fumo ter-se tornado um problema na cidade.

Na verdade, a poluição tem sempre acompanhado as civilizações: começou nos tempos pré-históricos, com os primeiros fogos intencionais e uma inadequada ventilação das cavernas, o que implicava um elevado nível de poluentes nos ambientes habitados. Análises dos glaciares permitem observar o aumento dos poluentes associados à civilização grega, romana, chinesa.
Portanto, o Homem do terceiro milénio tem:
  • uma experiência milenária em matéria de poluição
  • um conhecimento científico avançado do problema
  • recursos técnicos, antes não disponíveis, para enfrentar o assunto
E, mesmo assim, a poluição continua.
Para que serve a inteligência duma espécie se nem consegue assegurar a saúde do ambiente onde a mesma espécie prolifera? Pode ser definida "inteligência", na acepção positiva do termo?
Conhecem outra espécie animal que polui o seu próprio ambiente até prejudicar a vida dos indivíduos e pondo em risco o futuro da espécie? 

Uma balança

O elenco poderia continuar. Queremos falar do sistema económico doentio? Da extrema pobreza na qual são conscientemente mantidas inteiras regiões do planeta? Das doenças utilizadas como armas? Estes são apenas alguns exemplos da nossa "inteligência" aplicada.

Ao falar da "inteligência" humana, todos este factores têm que ser considerados também: não é suficiente observar complacentes a fórmula E=MC2 e dizer que sim, de facto temos uma inteligência estrondosa; não é possível continuar a esconder-se atrás de álibis ("É culpa dos Illuminati! É culpa dos poderosos! Somos escravos inconscientes! A gente não sabe!") que limitam-se a atirar a culpa por cima de outros e que não aguentam uma elementar crítica (e não apenas histórica).

Se é verdade (e é verdade) que sair das cavernas para habitar nas cómodas casas de tijolo é um progresso, também é verdade que a inteligência tem custos que a nossa espécie talvez não consiga pagar sem com isso prejudicar de forma irremediável não apenas o meio-ambiente, mas também perdendo de vista a essência da nossa existência, seja ela qual for (mas com certeza não pode ser aquela oferecida pelo presente).

Há um lado sombrio da inteligência, algo perverso que obriga os homens a continuar nos erros típicos da nossa espécie. E não são estas forças "animalescas" que de vez em quando ultrapassam o raciocínio: porque nestes aspectos negativos, o Homem sabe muito bem fazer convergir as suas próprias capacidades técnicas e criativas.

Há algo que obriga a continuar a matar, mentir, saquear, violar, torturar, perseguir, invadir, destruir, poluir. Podem as coisas positivas (que, seja claro, existem e não são poucas!) compensar tudo isso? Se existisse uma balança capaz de pesar os prós e os contras da nossa "inteligência", de qual lado penderia?

Começo a ter algumas dúvidas. E, ao mesmo tempo, acho que a solução não pode passar apenas pelos aspectos racionais da questão. Não é o Decrescimento, não é o carro eléctrico. E não será uma qualquer Nova Ordem Mundial.

O interior

A nossa "inteligência" tem trabalhado muito para melhorar as condições de vida. Coisa que tem feito com sucesso, pelo menos para alguns entre nós (é bom não esquecer que nós todos, o Leitor e quem escreve, fazemos parte duma elite de privilegiados que explora a pobreza dos outros para o seu próprio bem-estar: em caso de dúvida, perguntem a quem mora na Somália, na Nigéria, na Eritreia, etc.).

Todavia, o progresso que acompanhou o Homem ao longo dos últimos milénios foi essencialmente de tipo material; no plano espiritual a situação ou ficou parada ou até piorou. Se nos últimos 250 anos a escolha recaiu pesadamente na vertente material, é também verdade que este percurso já tinha sido traçado há muito, na prática poucas décadas depois do suposto sacrifício de Cristo: Roma decidiu tornar a religião cristã o único credo por um cálculo meramente político e, sucessivamente, os Papas sempre privilegiaram o aspecto mais materialista da religião.

No Ocidente foi assim: e este foi um erro, pois o Homem não é apenas um conjunto de carne e ossos, tem outras necessidades também que devem ser satisfeitas. Mas também seria errado identificar a espiritualidade apenas com a religião: a espiritualidade é um terreno demasiado amplo para ser vedado apenas com o arame farpado dos dogmas.

Aqui o vosso blogueiro é obrigado a parar: outros têm muitas mais capacidades para tratar deste tipo de assunto. A falta de experiência e uma educação "científica" privaram-me dos instrumentos necessários para poder pelo menos tentar uma abordagem séria ao problema.

Fica, no entanto, a pessoal clara sensação de que a "inteligência" dos seres humanos não possa ser considerada completa se descuidar dum lado que tem um peso específico elevado na máquina chamada "homem". Uma vertente, aquela espiritual, que não está limitada ao âmbito dos conceitos abstractos, mas tem repercussões na formação de cada indivíduo e na maneira como este irá relacionar-se com o mundo exterior.

Realmente achamos possível ter uma "inteligência" sã, com aplicações exclusivamente positivas, sem que esteja alcançado um equilíbrio interior ao Homem? Se a espiritualidade for entendida não como religião (mais uma vez, acho importante realçar este ponto) mas como percurso de crescimento, então a lógica resposta será: não.

Num mundo que escolheu o caminho exclusivamente materialista, tal é o nosso, é perfeitamente natural que existam opções que favorecem uns em detrimento dos outros; tem lógica a guerra, tem lógica a exploração sem limites da Natureza, e até uma economia perversa faz todo o sentido.

Num mundo em que as pessoas decidam cuidar do aspecto materialista e também do crescimento interior dos indivíduos, talvez tudo isso faça muito menos sentido.

Não gostam do termo "espiritual"? Entendo, eu mesmo tenho uma certa relutância, provavelmente porque é simples encontrar imensos caldeirões onde são feitos confluir Evangelhos, New Age e mensagens de seres do outro mundo (sic!). Mas podemos utilizar outro termo, como por exemplo "interior"; que bem se contrapõe aos excessivos cuidados para o "exterior".

Que fique claro: o desenvolvimento do "interior" (seja este o que for) não é a panaceia. Um mundo feito de pessoas que vivem nas árvores contemplando o pôr do Sol é uma visão aterradora. Mas uma sociedade onde o progresso material (prático) é acompanhado por um desenvolvimento interior (espiritual) parece-me uma mistura bem mais saudável do que a actual.

Até lá, penso que a nossa "inteligência" ficará incompleta e, portanto, as aplicações delas estarão sempre sujeitas a aqueles bugs que acompanham qualquer criação imperfeita. Continuará a ser uma "inteligência" imbecil. E nós continuaremos a ser inteligentes imbecis.

Agora, não perguntem a mim como cuidar do "interior", onde ou com quais instrumentos: falamos dum atraso de séculos que um blogueiro inteligente e imbecil não pode preencher.


Ipse dixit.
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