24 de abr de 2014

Indústria brasileira já considera 2014 um ano perdido

Posted by Semeando Paz on 24.4.14No comments

Imagem: Marcos Alves/O Globo
Diante da piora nas expectativas e da previsão de crescimento da economia cada vez menor, setores dinâmicos da economia dão como perdido o ano de 2014. 

Incapazes de vislumbrar de onde virá o aquecimento da atividade econômica e com a alta disseminada no nível dos estoques, empresários industriais reveem para baixo suas estimativas, que vão de queda até uma leve alta na produção. Enquanto a Confederação Nacional da Indústria (CNI) prevê avanço de 1,5% na indústria da transformação, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) passou a projetar queda de 0,8% na produção nacional este ano, sem boas perspectivas para 2015. A previsão anterior da Fiesp era de crescimento de 1%.
O longo ciclo de alta de juros, a reversão de desonerações tributárias e a provável alta no custo de produção, sobretudo em função do encarecimento da energia elétrica e dos insumos importados, estão entre os fatores que dificultam a vida dos fabricantes. Segundo o diretor do Departamento de Economia da Fiesp, Paulo Francini, o chamado carry-over (efeito estatístico que informa quanto do crescimento do ano anterior foi transferido para o seguinte) foi muito negativo para o setor, que virou o ano passado com queda de 3,7%. Além disso, 2014 começou pouco promissor, com redução do consumo das famílias e do crédito, associado a outros fatores “complicados”, como Copa do Mundo e eleições.
— A sensação que temos é que 2014 será mesmo um ano perdido — afirma Francini.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, disse que, em 2014, não haverá crescimento da produção de eletroeletrônicos. O faturamento do setor deve subir entre 3,5% e 4%, mas puxado pelas importações, que correspondem a 26% dos produtos acabados.
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A pesquisa de sondagem junto às empresas associadas à Abinee, que será divulgada na próxima semana e foi adiantada ao GLOBO, mostra uma piora nos negócios do setor em março: 44% dos empresários entrevistados responderam que houve aumento nas vendas, contra 61% em fevereiro, e 17% deles informaram que as vendas ficaram estáveis, percentual que correspondia a 25% em fevereiro. Para 39% das empresas, houve queda nas vendas, contra 14%, no mês anterior.
— Diante do calendário que nós temos, o ideal seria que este ano passasse bem rápido — destacou Barbato.
A indústria de máquinas e equipamentos, depois de amargar uma redução de 3% no faturamento em 2012 e de 5,7% em 2013, espera uma estagnação, ou até mesmo uma nova queda de até 3% nos resultados deste ano. Na avaliação do presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, com a conjuntura atual, uma retomada dos investimentos será possível apenas a partir de 2016.
— Este ano é de eleições. E o ano que vem será de ajustes, de corte de despesas, com um cenário que não será favorável para a indústria — disse.
A Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) estima um crescimento do setor de 4,5% no faturamento este ano mas, diante da desaceleração nas vendas de materiais de construção no varejo, o presidente da entidade, Walter Cover, avisou que os números podem mudar. Já a Anfavea, representante dos fabricantes de veículos automotores, espera que, no fechamento de 2014, seja registrado um crescimento de 1,4% na produção de veículos e de 1,1% nos licenciamentos (mercado interno). No ano passado, esses percentuais foram de 10% e -0,9%, respectivamente.
O presidente da Anfavea, Luiz Moan, reconheceu que, na atual conjuntura, o setor registra avanço em ritmo menos acelerado que o verificado durante a crise de 2008/2009. Ele observou, porém, que hoje as bases de comparação são bem maiores.
— Isso faz parte de um processo absolutamente natural que costumo batizar de dores do crescimento. Quando se vende pouco, é mais fácil registrar um aumento elevado. Mas, num patamar lá em cima, é mais difícil ter o mesmo ritmo de crescimento — disse Moan.
Dados da Anfavea mostram que o licenciamento de veículos registrou queda de 15,2% em março, com 240,8 mil unidades, na comparação com igual mês do ano passado. No primeiro trimestre, o recuo foi de 2,1%.
Perda de competitividade
Para o presidente do Instituto Aço Brasil, Marco Polo, o setor deve registrar crescimento em 2014, mas em cima de uma base reprimida. No caso do aço bruto, que registrou retração de 1% no ano passado, as projeções são de crescimento de 5%. As vendas internas devem subir 4,1% e as exportações, 2,3%, depois de uma queda de 17,5% em 2013.
Ele destacou que toda a indústria de transformação vem perdendo competitividade de forma sistemática, sobretudo com a entrada de importados, e não consegue aumentar as exportações. Já Fernando Pimentel, diretor superintendente da Associação Brasileira da Industria Têxtil e de Confecção (Abit), disse que a expectativa para a produção é entre alta de 1% e queda de 1%.
— Este ano deverá repetir 2013, porém com mais emoções. Temos eleições e Copa do Mundo, o que altera o movimento no comércio — disse Pimentel.
De acordo com o superintendente adjunto de Ciclos Econômicos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Aloisio Campelo Júnior, as pesquisas de sondagem industrial realizadas pela instituição entre fevereiro e março revelam crescimento disseminado do nível dos estoques nos setores industriais, sobretudo automotivo, mecânico, têxtil, vestuário e calçados, associado a uma demanda fraca, tanto no mercado interno, quanto externo.
— Não quero ser alarmista, mas não vejo sinais positivos na indústria, que deve terminar o ano em ritmo lento de atividade — disse o professor.
Ele destacou que a conjuntura é desfavorável aos investimentos. Lembrou que o setor de bens de capital, depois de resultados positivos entre o fim de 2012 e boa parte de 2013, com aumento nas vendas de caminhões e máquinas agrícolas, voltou a se desacelerar. A queda no índice de confiança neste segmento, salientou Campelo, deve se estender até o segundo semestre. Outro fator agravante são as incertezas envolvendo o setor energético.
CRISTIANE BONFANTI
GERALDA DOCA 
O Globo
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